Entrevista: Luiz Elias – Parte 1

Dossiê Luiz Elias
Parte 1- O início na Maristela e a montagem de O Grande Momento

Por Matheus Trunk

 

Zingu!– Como o senhor começou no cinema? 

Luiz Elias- Eu comecei na Maristela…isso começou quando eu era menino e morava no Jaçanã. Com treze, catorze anos eu só queria estilingue, nadar, essas coisas. Um rapaz que era segundo assistente na Maristela, o Sylvio Renoldi, me convidou pra ir pra lá. Eu comecei em 19 de janeiro de 1955 como terceiro assistente. Eu tinha acabado de completar catorze anos. O primeiro assistente era o João Alencar, o segundo era o Sylvio e eu era o terceiro. Minha função era limpar a sala, limpar o carro do chefe que era o Cañizares. Eu tinha muito interesse e era muito esperto, muito vivo. O Cañizares que era o editor estava na época editando dois filmes: Mãos Sangrentas e Leonora dos Sete Mares do Carlos Hugo Christensen. E o Cañizares queria que eu ficasse do lado da moviola. Eu era o terceiro assistente…mas ele queria que eu ficasse ali porque eu era mais rapidinho também. Pra mim, aquilo foi uma puta escola porque o Cañizares foi um dos maiores montadores que eu já conheci. Ele era um espanholzinho, não sei se todos se lembram dele. Foi uma boa escola, participei da Maristela durante muito tempo. 

Z- O senhor foi assistente dele durante quanto tempo? 

LE- Todo tempo que eu fiquei na produtora. Desde que eu comecei em janeiro de 55 até o final da Maristela. Ele fez esses dois: Leonora dos Sete Mares, Mãos Sangrentas e mais uns dois filmes de carnaval. Nisso, a Maristela estava terminando… o Roberto Santos tinha feito O Grande Momento e o Galileu Garcia tinha realizado o Cara de Fogo. Só que quando isso aconteceu o Cañizares e o João de Alencar já não estavam mais na Maristela.  Eu acabei continuando lá pra ficar guardando material que estava jogado. Nisso, o Roberto mandou eu sentar na moviola e pediu pra eu editar o filme. Eu tinha uma vaga noção de edição, timming, essas coisas. Ele sempre me auxiliava dando dicas sobre corte. Nisso, eu acabei editando. Só que quando foi pra sonorizar e mixar veio o João de Alencar que fez essa parte final e o nome dele aparece como montador. Mas tudo isso foi uma puta aula de cinema, edição. O Roberto Santos era um gênio na edição também. Eu vim pra cidade depois, trabalhei como assistente do Jornal da Tela… 

Z- Cinejornal? 

LE- Sim, eu fazia cinejornal com o Primo Carbonari. Depois, eu fui trabalhar na Lapa onde faziam dublagem de filmes americanos. Minha função era sincronizar a dublagem e o Mojica tinha feito A Sina do Aventureiro. Ele estava dublando e o pessoal me indicou pra sincronizar a dublagem dele. Eu sincronizei e ainda tinha que ajustar o filme. Eu acabei editando A Sina do Aventureiro e foi o primeiro longa meu. Depois, eu montei mais filmes dele: A Meia Noite Levarei a Sua Alma, Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver

Z- A Maristela foi uma espécie de universidade de cinema pro senhor? 

LE- Total. Não só pra mim mas pra todos aqueles técnicos: Osvaldo “Carcaça”, Sylvio Renoldi, Antônio Galante. Lá também tinha um intercâmbio com diretores franceses, italianos, ingleses como o Tom Payne que fez Arara Vermelha. Esse intercâmbio para nós era ótimo. A gente acabava convivendo com gente do primeiro time né? Então, eu saí de lá bem escolado. 

Z- O senhor acredita que a Vera Cruz e a Maristela tiveram muito mérito no lado técnico? 

LE- Muito, muito. A Vera Cruz também… grandes técnicos, diretores, editores. O Hafenrichter, depois todos os assistentes dele vingaram como o Lúcio Braun, o Mauro Alice. Técnicos de som também. 

Z- O senhor chegou a trabalhar com o Hafenrichter? 

LE- Não. Ele era da Vera Cruz. 

Z- Era muito diferente o trabalho dele do Cañizares? 

LE- Eu não acompanhei o trabalho dele na moviola. Eu acompanhei o Cañizares e pra mim ele era um montador perfeito. O Hafenrichter também devia ser porque os filmes eram muito bem-feitos. Pra te falar a verdade, eu não sei comparar os dois. Os dois têm as suas qualidades. 

Z- O senhor e o Sylvio Renoldi eram amigos desde a infância? 

LE- Desde a infância. O pai dele foi namorado da minha mãe (risos), a gente era quase que irmãos. Moleques de rua… ele começou a trabalhar um ano antes na Maristela. Acho que ele era um ano mais velho que eu e acabou me levando pra produtora. Nisso, eu comecei essa vida maldita (rindo). 

Z- Na opinião do senhor, por que essas produtoras importantes como a Maristela e a Vera Cruz acabaram falindo? 

LE- Lá era um negócio meio babesco. Lá (na Maristela) tinham jantares, festas…mais ou  menos o que aconteceu na Vera Cruz. Era muito dinheiro rodando, muita gente levando e não teve jeito de seguir em frente. 

Z- Como era trabalhar com o Primo Carbonari? 

LE- O Primo era um lixão (risos). O escritório dele ficava ali na (avenida) São João e ele fazia os Jornais da Tela. Ele mesmo revelava ali, eu ia ás vezes fazer alguma coisa, ia na filmagem segurar cruzeta pra ele. Eu assistia a montagem do Achilles Tartari que era um senhor velhinho com mais de 80 anos na época. O escritório do Primo era bem em cima de um cinema, no segundo andar. O cinema era térreo e tinha aquela marquise. Quantas vezes o Primo não tirou o rolo da mão do Achilles Tartari e jogou da marquise. Ele era grosso. 

Z- Ele fazia muitas coisas pros militares? 

LE- Sim. Ele sempre foi participativo nessa área. 

Z- O senhor trabalhou muito tempo com ele? 

LE- Não, pouco tempo. 

Z- Ele pagava em dia? 

LE- Que eu lembre sim. Eu era um assistente dele. Então, eu pegava lata em laboratório, acompanhava filmagens. Fazia projeção. Depois eu trabalhei na Jota Filmes como assistente. Essa produtora ficava na rua Major Diogo, no Bixiga. Nessa produtora, trabalhava eu e o Galante. O Galante era um assistente mais velho e eu estava apenas começando. Nisso, ele quis me escalar pra chegar na empresa às sete horas da manhã pra levar material pro laboratório. Depois, eu teria que chegar às seis horas da tarde para buscar o material. E eu morava no Jaçanã, na época era um ônibus que demorava um século pra ir e voltar. “Galante: pra chegar aqui sete horas da manhã eu tenho que sair cinco da manhã do Jaçanã”. Aí eu sai de lá e comecei a rodar por aí e a fazer uns filmes com o Mojica. 

Z- Fala um pouco do Roberto Santos. O senhor conheceu ele na Maristela? 

LE- Conheci lá. Ele era técnico… pra mim ele era um dos grandes diretores. É uma pena que ele durou pouco tempo, ele fez A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Ele era um diretor de primeiro time. 

Z- Quando o senhor conheceu ele, ele estava começando também. 

LE- Também. Eu não sei se ele já tinha feito alguma coisa antes. Mas você assistindo O Grande Momento consegue ver um cunho de diretor perfeito. Ele tem enquadrações, o timming das cenas. Um excelente diretor. 

Z- O senhor montou O Grande Momento com dezoito anos. 

LE- Dezoito anos. 

Z- Como foi o seu trabalho no O Grande Momento? O Roberto também sabia editar? 

LE- Sim. Tanto que a gente começou inclusive a trocar ideias. Eu lembro que tinha uma vista do alto, o Nelson Purino que era o ator vinha de frente correndo num parque. Nisso, ele cortava pra outro ângulo com a câmera de cima e ele entrando em quadro, se afastando. A gente ficava discutindo o corte. O Roberto queria que ele saísse de quadro e entrasse em quadro. Eu queria cortar ele no meio e colocar ele no meio da cena. A gente discutia cortes assim. Por exemplo, tinha uma cena em que a Norah Fontes estava abrindo um armário num plano-geral. Ela abria o armário e ele queria o corte no final da abertura da porta do armário. Eu queria no movimento no corte. O Roberto sabia perfeitamente o que queria, filmava direitinho, muito bem. 

Z- Um diretor seguro. 

LE- Seguro. 

Z- A montagem do A Hora e a Vez foi do Sylvio? 

LE- Do Sylvio. Meio revoltado… eu lembro que uma vez a gente foi receber um prêmio. Eu recebi sobre um filme e ele também recebeu no Teatro Record, que ficava na Augusta. Com a estatueta na mão, nós fomos num bar em frente tomar uma cervejinha, ele tomou umas duas e ficou nervoso. Ele pegou a estatueta e quebrou no chão: “Essa merda” (rindo). 

Z- E é um filme que é referência até hoje. 

LE- Toda essa trajetória acabou sendo uma escola. Primeiro o Roberto Santos, depois o Mojica e eu saí pros comerciais. Nisso, depois eu editei toda a série do Vigilante Rodoviário que foi de 61 a 63 mais ou menos. São 39 episódios. 

Z- O senhor trabalhou bastante tempo na Maristela. O senhor conheceu bem o Mário Civelli? 

LE- Muito, muito. Uma grande figura. 

Z- Hoje falta um pouco no cinema essa figura do produtor. 

LE- Falta, falta. Aliás, há pouco tempo a filha dele me procurou porque uma época ele queria fazer um documentário. Eu não freqüentava aqui a Boca do Lixo e ele tinha um escritório aqui em frente. Ele me chamou: “Luizinho vou fazer um documentário sobre as coisas do Brasil e quero que você edite”. Com ele a briga era pra acertar o preço, era uma briga, aquele italiano era foda. Ele tinha me indicado pra montar um filme de um outro italiano que tinha aparecido aqui no Brasil chamado Gino Parmisano que fez o filme A Desforra e eu montei. Acho que o Civelli se sentiu na obrigação de me usar um pouco e quis que eu editasse esse filme. Era um filme simplesmente de edição porque tinha um vasto material de arquivo que um senhor tinha fornecido pra ele de todo Brasil. O cara fazia cinejornais, um material lindo sobre o Pará, os índios, madeira, seringueiros, tudo, tudo. Ele tinha um material lindo sobre as guerras, São Paulo antigo. O Civelli queria abocanhar esse material todo e fazer um documentário. Eu lembro que eu comecei esse documentário e não terminei. Aí uns dois ou três anos atrás a filha do Civelli não sei como descobriu o meu telefone e me ligou: “Olha, eu estou vendo o seu nome no filme que você fez o roteiro e a edição”. Respondi: “Não, eu não fiz roteiro nenhum. Eu participei da edição mas não terminei”. Também tinham participado da montagem o Glauco Mirko Laurelli e o Máximo Barro. 

Z- Poxa, três montadores pra um filme. 

LE- Porque o Civelli era no cacete… não era uma coisa que você pegasse e terminava. Você tinha que esperar, pegar mais material. Na época todos nós tínhamos muita coisa pra fazer e então saia um, entrava outro. Ele estava terminando até… ia fazer uma finalização do filme e me convidou pra ir assistir. Mas depois ele sumiu. O Civelli era uma figuraça… na Maristela, por exemplo, ele fez um documentário chamado O Grande Desconhecido. Quem montou essa fita foi o Lourenço Sorrano e a Maria Guadalupe. Eu também participei da montagem como assistente. Quando a gente estava começando a montagem desse filme, o Civelli chegou de viagem com cinco ou seis jipes da Willys. Ele tinha feito uma caçada e trouxe umas vinte cascas de jacaré. Ele tinha matado lá e trouxe tudo fedendo. Quando ele chegou, ele jogou tudo no chafariz da Maristela. Ele queria que eu lavasse pra ele tudo aquilo. Aquilo fedia pra caramba. 

Z- Ele gostava de caçar? 

LE- Ele caçava. Ás vezes ia pro Mato Grosso, Pará. Ele matou os jacarés e trouxe como escovo. Tudo mal cortado, mal repicado. O Civelli queria que eu pegasse uma escovinha e lavasse tudo. Eu falei: “Não, só se eu pegar o meu irmão pra ajudar. Só que ele trabalha numa fábrica”. O Civelli me perguntou: “Quanto ele ganha? Fala pra ele ficar uma semana aqui com você que eu pago três vezes mais pra ele”. O meu irmão pediu licença na fábrica e até hoje ele não recebeu. 

Z- O senhor lavou jacaré então? 

LE- Lavei todo o couro do jacaré. Lavar uns trinta couros de jacaré não é algo fácil. 

Z- Depois falam que trabalhar em cinema brasileiro é fácil. 

LE- Mas não é só lavar. Depois você precisar deixar o couro pra secar. 

Z- Devia feder muito… 

LE- Muito, muito.  

Z- Levou uma semana pra vocês lavarem tudo? 

LE- Uma semana. Tinha uns trinta… Você tinha que esfregar, lavar, passar um produto, secar e depois passar outro. O Civelli usava a Maristela como se fosse a casa dele, ele tomava conta. Ele e a italianada que ele botou lá. Eu conheci ele e nem imaginava trabalhar em cinema. A gente morava numa vila de casa, tinha um muro alto e do outro lado tinha a casa dele, um puta dum casarão. Na época, ele estava fazendo um filme com o Luigi Picchi e eu lembro da minha irmã que ficava em cima do muro vidrada no Luigi Picchi. 

Z- O Luigi Picchi era o maior galã da época. 

LE- Então, nesse tempo eu já via o Civelli andando pra lá e pra cá. Era uma figura muito simpática. Eu gostava muito dele. 

Z- Apesar desse lado, uma figura doce. 

LE- Apesar desse lado mafioso dele (risos).

Parte 2

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