Os Imorais

Dossiê Geraldo Vietri

Os Imorais
Direção: Geraldo Vietri
Brasil, 1979

Por Andrea Ormond

Há quem defenda que a boa crítica de cinema deve levar em consideração o tempo e as condições em que são feitos os filmes, muito mais do que sua técnica e virtuosismo. Por este olhar, uma obra como Os Imorais (1979), de Geraldo Vietri, parece grande, ambiciosa, embora nada guarde de esteticamente interessante, ficando muito próxima a um teledrama em 35 mm.

Mas Vietri, homem identificado com a TV, não queria de fato alcançar nenhuma originalidade como diretor, senão a de contar uma bela história. Condiciona o espectador de tal forma que quase acreditamos em sua armadilha, para no fim sucumbirmos a um êxtase surpreendente.

Isto porque, à primeira vista, Os Imorais ilustra chavões e moralismos correntes. O pobre cabeleireiro gay, Gustavo (Paulo Castelli), é imagem de solidão, desamparo, de uma desgraça frágil em que se mete por conta de um amor platônico. O rico Mário (João Francisco Garcia), por sua vez, é o retrato do mimo e da segurança, adequado a um esquema social hipócrita em que mãe e pai vivem casamento de fachada, dividindo um palacete.

Que o pai seja bissexual e a mãe consolo do motorista, pouco importa. Ricos, ganham sempre. E Mário ainda se apaixona pela dondoca Glória (Sandra Bréa), socialite em quem pode dar o golpe do baú e multiplicar fortuna e conforto. No meio disso, Gustavo é a ponte entre o flerte do casal, já que Glória freqüenta o mesmo cabeleireiro da mãe de Mário.

Tudo daria certo, Gustavo ganharia algumas gorjetas, não fosse sua paixão discreta e avassaladora pelo playboy. Atrai Mário para sua casa com a promessa de um encontro com Glória, mas ela não está lá. É aniversário de Gustavo e não há nenhum convidado, só o inquieto Mário, à espera de alguém que nem sabe que foi convidada.

Se o leitor quiser passar mal de vergonha alheia, se quiser entender o que é um adágio constrangedor, não precisa sentir na própria pele a experiência: ela está ali, na seqüência infernal de Os Imorais, encenada no apartamento de Gustavo durante a celebração sem convidados, através dos olhares impacientes do constrangido Mário, que termina por ir embora, deixando o outro sozinho, cantando parabéns rodeado por bichos de pelúcia e uma falsa alegria que parece prenúncio de suicídio.

Da janela do apartamento de Gustavo descortina-se a São Paulo dos anos 70, personagem incidental e massacrante, o verdadeiro leitmotiv da trama. E não se enganem buscando nisso qualquer lirismo ou nobreza: a metrópole setentista surge má, dura e perversa aos olhos do diretor-roteirista, notoriamente um apaixonado por seu torrão natal.

Ninguém naquele microcosmo se gosta. Ninguém se ajuda. A “imoralidade”, antes de qualquer coisa, é um hedonismo impune, e os urbanóides de trinta anos atrás assemelham-se bastante aos do pós-apocalipse de 2010, nesta escalada de egoísmo histérico que vivemos.

Para piorar, há o Minhocão. Sim, o Elevado Costa e Silva, que passa pela janela de Gustavo dia e noite, mortificando de gás carbônico o que por si só já parece desolador. A intervenção urbana desastrada, a sexualidade cindida e a sociopatia coletiva não estão ali à toa. Formam um mosaico da análise sociológica de um hospício sem esperanças.

Toda a farsa, todo o panorama de anedota tragicômica, porém sucumbe em uma redenção: Gustavo e Mário se aproximam, trocam confidências, marcam programas. Em uma dessas saídas, Gustavo conhece Rosa (Aldine Müller) e se apaixona por ela. Fazem planos e vendem quadros na Praça da República. Pretendem casar e mudar, de preferência para longe do Minhocão. Gustavo não é mais ele mesmo. É outro que desconhecia.

E Mário, enciumado do amigo, ignorante e confuso sobre si, trai tudo aquilo que havia dito antes e mergulha na infelicidade, no desespero. As certezas e o preconceito homofóbico desabam e oferece o mundo para que Gustavo fique com ele. Assim, consolida-se um enredo mirabolante, que prometia comédia cafajeste e termina em sinistro drama de costumes, como já apontei no texto escrito em fevereiro de 2006.

Dissolvida a falsa certeza, o falso catecismo, até o título ganha sentido oculto. É irônico, antes de simplista. Afinal, quem são “os imorais”? Onde termina a convicção e começa a hipocrisia, o recalque, o arranjo? Quando a homossexualidade ainda era praticada na calada da noite e o Brasil julgava-a sobre aparato de estereótipos, “Os Imorais” não quis carnaval nem bichas pintosas. Amor expiado, gritado e debatido sem medos é seu grande mérito. Um espetáculo, até hoje, corajoso e impressionante.

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