Entrevista: Cleodon Coelho

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz

 

Entrevista: Cleodon Coelho

Por Adilson Marcelino

 

Cleodon Coelho é pernambucano. Jornalista graduado pela UFPE, trabalhou em várias publicações, como Folha de Pernambuco, Diário de Pernambuco, Contigo! e Capricho. Roteirista de programas na Rede Globo, como Vídeo Show, TV Globinho e Estação Globo, é um dos roteiristas do Domingão do Faustão. Publicou em parceria com Mauro Ferreira o livro Nossa Senhora das Oito, sobre a novelista Janete Clair.

Convidado por Rubens Ewald Filho, coordenador da Coleção Aplauso, escreveu a biografia Lilian Lemmertz – Sem Rede de Proteção. Em entrevista exclusiva para a Zingu!, Cleodon Coelho fala sobre o livro, sobre sua pesquisa e sobre a carreira de sua biografada.

 

Zingu!: A biografia de Lilian Lemmertz para a Coleção Aplauso, Lilian Lemmertz – Sem Rede de Proteção, foi um convite do Rubens Ewald Filho, coordenador da publicação. Como se deu o trabalho de pesquisa?

Cleodon Coelho: Quando comecei a trabalhar no livro, no final de 2007, a preocupação era trazer à luz a história de Lilian, que estava um pouco esquecida. Era uma grande atriz, mas na minha opinião sua importância não era reconhecida à altura. Mas com o decorrer do tempo (foram três anos até concluir o trabalho), o material recolhido era tão vasto e rico que eu e Julia Lemmertz, sua única filha, batalhamos para que o livro saísse em edição especial, aproveitando todas as fotos pessoais e profissionais, os programas das peças, cartazes de filmes. E o melhor é que a Coleção Aplauso tem um preço acessível. Mesmo ficando com esse tamanho e essa qualidade, o preço é relativamente barato, R$ 30,00. É uma maneira da história da vida e da carreira de Lilian poder chegar ao maior número de pessoas possível.

Z: A participação de Julia Lemmertz foi imprescindível para a feitura do livro, não é? Como foi a relação de vocês? Foi doloroso para ela?

CC: Desde que a Coleção Aplauso começou a ser feita, em 2004, o nome de Lilian estava na lista das personalidades das artes cênicas brasileiras que eles gostariam de retratar. A ideia original era que a própria Julia escrevesse. Mas a Julia não se sentia à vontade para isso. Eu era roteirista do Vídeo Show, trocava e-mails com o Rubens Ewald Filho, que coordenava a coleção, e um dia ele perguntou se eu toparia essa empreitada. Nem pensei duas vezes. Era um nome fascinante para deixar passar. E o primeiro passo foi procurar a Julia, que deu total apoio. Foi difícil relembrar histórias da Lilian, afinal, antes de ser atriz, era sua mãe. Ela foi cuidadosa, me deu uma lista com nomes de pessoas que conviveram com ela, como Eva Wilma, Irene Ravache, Tony Ramos, além de familiares como o tio dela, Cassio Lemmertz. Depois de um ano de pesquisa, a Julia me ligou feliz da vida por ter achado uma mala cheia de recortes que ela nem lembrava que tinha guardado. Esse material era riquíssimo. Através dos recortes, dava para perceber o quanto suas criações (teatro, cinema, TV) eram bem cuidadas, pois os críticos sempre ressaltavam esse rigor com que ela construía suas personagens. Foi um processo longo, mas não tinha como ser diferente. Julia não deixa de também ser autora desse livro.

Z: Como cita no prefácio do livro, a Lílian era uma personagem que povoava a sala de TV da casa de sua família, mas a relação com a biografada fica apenas nesta instância, você não a conhecia. Qual Lílian encontrou no seu trabalho?

CC: O maior desafio foi juntar todo o material e decidir como contar essa história. Escrevi e reescrevi capítulos várias vezes. Tinha muita informação na mão, e não queria fazer uma biografia que começasse pela infância, e seguisse a ordem da vida. Vou e volto no tempo várias vezes, e manter essas idas e vindas sob controle, para não deixar o leitor perdido, foi um desafio enorme.

Z: Você colheu vários depoimentos de pessoas e personalidades que conviveram com a Lilian. Teve algum, ou mais de um, que você destacaria aqui?

CC: A reação que as pessoas tinham quando sabiam que eu estava fazendo esse livro era fantástica. Desde o começo eu sentia que as pessoas que conviveram com ela sentiam sua falta, tinham desejo de matar essa saudade, e um livro era uma boa maneira de aliviar essa ausência. Lilian morreu muito nova, aos 48 anos, mesma idade que a Julia tem hoje. Ela estava no auge e ainda tinha uma carreira inteira pela frente. Ficou um buraco, uma sensação de. Tive uma torcida grande dando força para que o trabalho ficasse bonito. Não só a Julia, Alexandre Borges e os outros familiares, como colegas como Laura Cardoso, Paulo Betti, Ewerton de Castro. Muita gente que conviveu com ela, ao saber que o livro estava sendo escrito, vasculhou seus arquivos para contribuir. O estilista Rui Spohr, para quem ela trabalhou como modelo de chapéus aos 18 anos, mandou várias fotos, a própria Julia não tinha ideia de que a mãe tinha feito tantos trabalhos como modelo. Uma atriz gaúcha chamada Maria do Horto mandou fotos das novelas ao vivo que elas fizeram na TV Piratini, em Porto Alegre, em 1960. Belinha Abujamra, mulher do Antonio Abujamra e melhor amiga de Lilian, mandou fotos das primeiras peças que ela fez como atriz amadora, também em Porto Alegre. Até Lidia Brondi, que deixou a carreira há 20 anos, topou falar. Elas fizeram quatro novelas juntas e a Lilian considerava a Lidia uma filha. Mesmo com o trabalho solitário que é escrever um livro, sabia que tinha muita gente mandando energia boa, torcendo para que o livro “nascesse”.

Z: São muitos os destaques na carreira cinematográfica da Lilian: a parceria com Khouri; Cordélia, Cordélia…, do Rodolfo Nanni; Lição de Amor, do Eduardo Escorel;  Aleluia Gretchen, de Sylvio Back…

CC: O Sylvio Back quis, nesse filme, trabalhar com atores de origem alemã. E coube a Lilian o papel de uma oficial sisuda, que se “divertia” comandando sessões de tortura. A foto da capa do livro, inclusive, é de uma dessas cenas, mostrando Lilian bem desafiadora.

Z: a Lilian era uma atriz generosa e corajosa. Não seu furtou a atuar em cenas de homoerotismo, como em Copacabana mon Amour, de Rogério Sganzerla, Barão Olavo O Horrível, de Julio Bressane, As Deusas, de Walter Hugo Khouri, e Janete, de Chico Botelho. Esta é também uma faceta pouco falada sobre a carreira da atriz, não é?

CC: Desde que ela confiasse no diretor e no projeto, isso definitivamente não era problema. Acho que uma de suas maiores qualidades era a coragem. Por isso o título do livro: ela se atirava sem rede de proteção.

Z: Já no prefácio, você cita a repercussão indevida que teve o precoce falecimento da atriz. E durante a carreira da Lilian, como ela foi tratada pela mídia, e, mais especificamente, pela crítica?

CC: Impressiona o quanto, desde o começo da carreira, os trabalhos da Lilian foram bem-recebidos pela crítica. Desde os tempos do teatro amador em Porto Alegre, suas interpretações eram elogiadas, o cuidado com que tratava suas personagens era exaltado. Ela guardava tudo, tinha recortes de praticamente todos os trabalhos. Foram poucas, raríssimas, as críticas negativas. Mas ela fazia questão de guardá-las também

Z: a Lilian fez um número razoável de novelas, mas em quantidade bem menor que outras atrizes de sua geração. Alguns destaques são Xeque Mate, de Walter negrão e chico de Assis, na Tupi, e Baila Comigo, de Manoel Carlos, e Final Feliz, de Ivani Ribeiro, ambas na Globo.  A atriz construiu, por exemplo, uma vilã inesquecível em Xeque Mate. Que marca você acha que ela deixou nestes trabalhos na TV?

CC: Ela não fazia distinção entre cinema, teatro ou TV. Gostava mesmo era de bons personagens. O respeito pelos papéis na TV era o mesmo. Por isso, ela fazia tudo com um acabamento tão refinado.

Z: Uma das primeiras perguntas foi quem foi a Lilian que você encontrou em suas pesquisas para escrever a biografia. Agora, a pergunta é: quem é essa mulher que o leitor vai conhecer a partir desta publicação?

CC: Lilian era uma atriz que não exagerava nos gestos, ela fazia da sutileza sua grande arte. Sabia respeitar o silêncio. Ela não gostava de fazer nada de qualquer jeito. Mesmo quando estreava achando que não tinha “encontrado” a personagem, continuava nessa busca, mesmo que às vezes nunca se sentisse satisfeita.

Lilian Lemmertz por Ênio Gonçalves

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz

 

Lilian Lemmertz por Ênio Gonçalves 

A primeira vez que vi Lilian pessoalmente foi ela subindo a rua da Praia, sendo carregada numa “cadeirinha” formada pelos braços de dois rapazes (acho que Lineu Dias e Volney de Assis), os três às gargalhadas, causando escândalo na provinciana Porto Alegre de 1960. Aquela gente de teatro! Peréio usava mocassim sem meia, um escândalo! 

Os grandes escritores Paulo Hecker Filho e Gerd Bornheim faziam parte daquele grupo, em que todos adoravam Lilian: Milton Person, Mário de Almeida, Peréio, Paulo José, Fernando Peixoto, Airton Cláudio Heemann, Caldasso e tantos outros. Lilian era uma espécie de rainha da rapaziada com sua inteligência e beleza. 

Recordo-me de tê-la visto protagonizando, naquela época de teatro amador, as peças À Margem da Vida, de T. Williams, e A Filha, de Strindberg. 

Anos mais tarde, já casada com Lineu Dias e morando em São Paulo, Lilian virou uma estrela nacional com os filmes do Khouri e a inesquecível “Fraulein” do filme do Escorel baseado no romance de Mário de Andrade. 

Nessa década de 70, tive o privilégio de fazer par romântico com Lilian em dois trabalhos na televisão: em Felisberto do Café, de Gastão Tojeiro (direção do endiabrado Benedito Corsi para a TV Cultura) e a novela Xeque Mate, na TV Tupi. 

Neste trabalho, Lilian compôs com grande estilo uma “vamp” dos anos quarenta que atormentou o meu personagem o tempo todo. Que atriz maravilhosa! 

Lilian tinha um temperamento muito especial. Extremamente crítica e inteligente, refletia a maneira de ser de um certo tipo de gaúcho descendente de alemão. Ela se relacionava com o mundo de maneira seca, objetiva, sem frescura. Seus comentários eram diretos, não aliviavam a barra de ninguém, não era uma expert em diplomacia. Acho até surpreendente que tenha feito a carreira que fez, num meio em que o puxa-saquismo impera. 

Sinto uma enorme saudade de Lilian e Lineu.  

Fronteiras do Inferno

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

Fronteiras do Inferno (Lonesome Woman)
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1959.

Por Ana Martinelli

A revisão da filmografia completa de Walter Hugo Khouri ainda nos reserva algumas surpresas. A primeira sensação ao assistir Fronteiras do Inferno é o estranhamento: primeiro porque não temos os cenários urbanos ou luxuosos, o filme se desenrola no interior do Brasil numa vila de exploração de diamantes, nada de glamour ou questões existenciais. Ali, a luta é pela sobrevivência da opressão das famílias e dos trabalhadores pobres subjugados à ganância dos que têm a posse do território.

Feito sob encomenda, o filme é uma produção norte-americana e o elenco brasileiro, portanto, dublado em inglês. A narrativa mostra domínio da linguagem clássica do drama e flerta com os filmes de aventura e, até, ação da época, com direito a alguma pancadaria e lados bem definidos entre mocinhos e bandidos.

No final, como é de se esperar, o amor vence e o casal, interpretado por Hélio Souto e Aurora Duarte, consegue escapar; a disputa pela fortuna, representada pelo domínio do grande diamante, culmina na morte do chefe da mineradora, um bandidão inescrupuloso vivido por Luigi Picchi.

O próprio autor dizia que Noite Vazia (1964) foi um estalo, no qual ele encontrou sua voz no cinema, e alguns teóricos consideram sua produção anterior como a fase do cinema independente. Logo, não é nenhum despropósito dizer que Fronteiras do Inferno é um pré-Khouri.

Alguns elementos que se tornariam marcas registradas do estilo do diretor estão também neste momento de sua carreira, em fase embrionária, e, pensando no conjunto da obra, é quase inevitável não procurá-los.

Khouri reserva uma das mais belas sequências à uma personagem secundário. Bárbara Fazio interpreta a mulher do bandido, uma personagem deslocada, vestida como uma diva, como uma beldade em meio ao nada e ao tédio. Ela não suporta mais e durante uma discussão surta: se olha no espelho da penteadeira, daquelas antigas compostas por três espelhos ligados a dobradiças. Num plano fechado, filmado por trás, vemos três reflexos de seu rosto mergulhado em angústia. Olha-se e, ao mesmo tempo, apenas o vazio de uma existência sem sentido, da promessa do amor que se esvai: “Eu estou ficando louca nesse lugar por sua culpa. Você disse que ficaríamos um ano e já faz oito. Eu estou definhando, dia após dia apodrecendo nesse lugar, coberta de poeira e tristezas. Cheia de ódio.”

Mas são pequenas pitadas de Khouri numa produção tradicional. Apesar da competência da realização e de alguns outros bons momentos, é um filme mediano. Pensando e pesquisando sobre o filme, encontrei um pequeno texto de Gustavo Dahl sobre Fronteiras do Inferno, escrito em 1958. Resolvi compartilha-lo para o entendimento do que significa mediano na filmografia do diretor e também pela clareza com que Dahl consegue traduzir o momento:

“Ele é cultura, sensibilidade, inquietação, inteligência e talento a serviço de um enorme amor ao cinema. E a escassez de tudo isso é tão grande no cinema brasileiro, que mesmo um filme como Fronteiras do Inferno, sabidamente realizado num esquema comercial e com grandes limitações materiais, adquire uma importância que em circunstâncias normais nunca poderia ter.”

 

Ana Martinelli é jornalista, crítica e pesquisadora de cinema. Escreveu e editou o canal de vídeos no site Cineclick, e colabora para a revista Tela Viva, site da TPM, entre outros.