Lilian Lemmertz por Ênio Gonçalves

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz

 

Lilian Lemmertz por Ênio Gonçalves 

A primeira vez que vi Lilian pessoalmente foi ela subindo a rua da Praia, sendo carregada numa “cadeirinha” formada pelos braços de dois rapazes (acho que Lineu Dias e Volney de Assis), os três às gargalhadas, causando escândalo na provinciana Porto Alegre de 1960. Aquela gente de teatro! Peréio usava mocassim sem meia, um escândalo! 

Os grandes escritores Paulo Hecker Filho e Gerd Bornheim faziam parte daquele grupo, em que todos adoravam Lilian: Milton Person, Mário de Almeida, Peréio, Paulo José, Fernando Peixoto, Airton Cláudio Heemann, Caldasso e tantos outros. Lilian era uma espécie de rainha da rapaziada com sua inteligência e beleza. 

Recordo-me de tê-la visto protagonizando, naquela época de teatro amador, as peças À Margem da Vida, de T. Williams, e A Filha, de Strindberg. 

Anos mais tarde, já casada com Lineu Dias e morando em São Paulo, Lilian virou uma estrela nacional com os filmes do Khouri e a inesquecível “Fraulein” do filme do Escorel baseado no romance de Mário de Andrade. 

Nessa década de 70, tive o privilégio de fazer par romântico com Lilian em dois trabalhos na televisão: em Felisberto do Café, de Gastão Tojeiro (direção do endiabrado Benedito Corsi para a TV Cultura) e a novela Xeque Mate, na TV Tupi. 

Neste trabalho, Lilian compôs com grande estilo uma “vamp” dos anos quarenta que atormentou o meu personagem o tempo todo. Que atriz maravilhosa! 

Lilian tinha um temperamento muito especial. Extremamente crítica e inteligente, refletia a maneira de ser de um certo tipo de gaúcho descendente de alemão. Ela se relacionava com o mundo de maneira seca, objetiva, sem frescura. Seus comentários eram diretos, não aliviavam a barra de ninguém, não era uma expert em diplomacia. Acho até surpreendente que tenha feito a carreira que fez, num meio em que o puxa-saquismo impera. 

Sinto uma enorme saudade de Lilian e Lineu.  

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