Reflexos em Película

Por Filipe Chamy


Um “até logo”


Tudo tem um fim. O desta coluna é agora.

Há mais de dois anos Reflexos em película tem exposto um pouco da minha visão sobre cinema e pequenos incidentes cotidianos relacionados a essa arte. Neste pequeno espaço, relato pensamentos, desenvolvo teorias e — por que não? — reclamo de várias coisas que me desagradam e incomodam.

Mas chega um momento em que a coisa chega à exaustão. Paro por várias razões: total ausência de feedback de eventuais leitores, falta de ânimo e, claro, escassez de temas a comentar. Não sou uma máquina, e às vezes simplesmente não tenho o que falar. É o que vem ocorrendo cada vez com mais frequência. Nos meus demais textos para a Zingu! já há bastantes indagações e críticas minhas.

Não é um adeus definitivo (pois o que é definitivo na vida?). Um dia, a coluna pode voltar. Com outro nome, talvez, novas metas. Mas por ora ela se encerra; e se em seu primeiro número a dificuldade era o batismo, aqui temos problemas de outra ordem: o epitáfio. É difícil lidar com mortes. Ou mais propriamente, com a alteração de uma situação que imaginávamos perene.

Eu não tenho grande respeito ou estima por quem nunca muda de opinião, sempre tem julgamentos definitivos e nunca se arrepende. Para mim isso é a contramão da evolução das pessoas. É preciso haver dúvidas, questionar-se a todo instante, tentar melhorar. Como nosso assunto é cinema, termino os trabalhos nesta coluna com essa proposta de discussão: o que mudou na sua percepção de filmes ao longo do tempo?

Eu já passei por tantos conflitos de valoração que hoje entendo ser perfeitamente normal passar a ter critérios e apreciações diferentes dos que nos habituáramos. Eu adorava Martin Scorsese, por exemplo, e hoje é um cineasta que me deixa entediado no mais das vezes: entendo sua euforia cinéfila mas considero sua abordagem de exploração repetitiva de maneira bem pouco interessante; Ingmar Bergman era um de meus maiores amores, hoje, talvez pela “overdose” de seus filmes chegando aqui em DVD, desanimei ao ponto de achá-lo apenas “mais um bom diretor” (com um punhado de excelentes filmes em sua carreira, ressalte-se); não tolerava Manoel de Oliveira, cultor de um tipo de expressão que hoje me conquista pela profunda simplicidade das formas; etc. Há muita coisa para se reavaliar, para se conhecer em revisões, para constatar que, no fim das contas, você foi superficial, ingênuo ou simplesmente equivocado em seu juízo: aquilo que você detestou um dia pode ser algo que mais diretamente fala a você e comunica-se com sua sensibilidade; do mesmo modo, aquilo que você amou hoje pode nada mais te dizer e ser tão dispensável quanto a mais tola bobagem.

Também por isso esta coluna chega ao fim. De nada me adianta investir em uma coisa em que já não mais acredito. Este espaço foi meu amigo por meses e meses e meses, mas doravante apenas na memória ele deve ficar, não tenho mais nada a dizer. Não aponto o dedo a ninguém por quaisquer “faltas de apoio”; o caso é que, como acredito ter explicado, ao longo do tempo nossos valores vão se metamorfoseando — e chega este estágio de inércia, do “nada mais para falar ou fazer”, do compromisso sem entrega. É preciso haver qualidade aliada ao comprometimento, e esta Reflexos em película refugia-se atrás dos panos antes que o palco revele sua inescapável falta de atração. Assim como o ator que deseja apenas mostrar seu melhor, num certo sentido.

Então agradeço a atenção dada a esta coluna e cumprimento os leitores que de uma maneira ou de outra fizeram parte desta história.

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