Beijo 2348/72

Dossiê Júlio Calasso


Beijo 2348/72
Direção: Walter Rogério
Brasil, 1990.

Por Edu Jancz

O ponto de partida de Beijo 2348/72 é um fato verídico. Um operário é flagrado beijando colega de serviço, demitido por justa causa e, a partir daí, nasce toda uma discussão sobre o beijo, seu poder de sedução, pecado e os malefício que o ato podia trazer para a empresa em que trabalham: um tear.

2348/72 é o número que o processo ganhou na justiça. E o filme se divide em ver “o lado jurídico do caso” e o lado “dos paqueras”, autores de um simples e singelo beijo, talvez ponto de partida para uma traição.

Os personagens: Norival (o fantástico Chiquinho Brandão), Catarina (Maitê Proença), Claudete (Fernanda Torres) e Alvarino (Ary Fontoura).  Norival é um solteirão descomprometido, com a libido em alta e disposto arrumar uma namorada. Ou várias. Claudete trabalha no tear e gosta de Norival. Ele se apaixona por Catarina, funcionária exemplar e casada, que também é assediada pelo encarregado Alvarino.

O beijo entre Norival e Catarina trunca a vida de todos.  Não que a vida pare, nem as paqueras adquiram vida em outros ambientes que não o tear. A vida de Norival vira um inferno durante o tempo em que move um processo contra a empresa. O embate jurídico passeia por todos os campos: da visão mais preconceituosa por parte dos advogados da firma, até, com o passar dos anos – sim, o processo se “arrasta” – e com ele “arrasta” mudanças em pontos de vista enferrujados. Afinal, foi somente um beijo!

O diretor de Beijo 2348/72, Walter Rogério, estreia no longa com um filme nonsense. É como se ele assemelhasse a “piada do processo”, a “piada da argumentação pífia” e preconceituosa da empresa, com uma encenação “circense”, onde tudo pode acontecer. O comprometimento com o tempo real e realismo fica na linha “tênue” entre rápidas mudanças de ser ou não ser, como duas crianças brincando e, sempre mudando as regras do jogo.

A encenação é eminentemente “lúdica”. Os personagens, como donos de seus movimentos num ambiente “sério” e “empresarial”, brincam com atos e sentimentos. E tudo parece possível.  Chiquinho Brandão tem a elasticidade de um clown. Um clown que nem sempre atinge seus objetivos, mas nunca perde a pose.

Destaque para a excelente fotografia de Adrian Cooper. Sua câmara ágil e sempre presente, ajuda o filme a ganhar esse contorno de “ritmo frenético” e/ou “sonho” ou o “mambembe de um circo” e seu tempo próprio.

Como em processo contrário, o diretor leva o julgamento do beijo até o STF – entulhado de togados – que não perdem a pose nem no momento de finalizar um debate totalmente esvaziado.

Beijo 2348/72 tem elenco prodigioso, com a presença de Antonio Fagundes, Miguel Falabella, Gianfrancesco Guarnieri, Julio Calasso e a participação especial de Genival Lacerda, com suas músicas de duplo e triplo sentido.

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