Filme Demência

Dossiê Júlio Calasso


Filme Demência
Direção: Carlos Reichenbach
Brasil, 1985/87.

Por Ailton Monteiro

Ler o calvário que foi a preparação de Filme Demência, presente no livro Carlos Reichenbach – O Cinema como Razão de Viver, dá uma ideia do quanto foi difícil a gestação deste, que é considerado pelo próprio cineasta o seu filme favorito e pelo qual mais gostaria de ser lembrado. As dificuldades de sua produção começaram a partir do orçamento pequeno, o que dificultou a contratação de um ator para interpretar Mefisto (que acabou nas mãos de Emílio de Biasi). Depois, há todo o contexto socioeconômico da época, com a inflação comendo o dinheiro das pessoas a cada dia, a ponto de, tanto Carlão quanto o montador do filme, Éder Mazini, terem que sobreviver às custas de suas esposas em certo momento da realização. Havia uma obsessão, uma necessidade pela conclusão do filme, e isso custou muitas noites de sono de seu diretor. A produção foi interrompida por três vezes por atraso da verba da Embrafilme e, em uma dessas vezes, as filmagens pararam por quatro meses. Sorte que isso não é notado quando se assiste ao filme.

Filme Demência é o mais delirante dos trabalhos de Carlão, uma espécie de “Alice no País das Maravilhas” adulto e tenebroso; afinal, trata-se de uma versão bem pessoal da lenda de Fausto. Que é o nome do protagonista, vivido por Ênio Gonçalves. Ele está falido, perdeu a empresa de cigarros que possuía por causa da crise econômica, perdeu também a esposa para o sócio e anda feito um errante sem razão de viver pelo mundo. Aliás, sua única razão de viver é encontrar uma praia e uma garotinha que aparece em seus sonhos, sua filha.

No meio do caminho, ele encontra diversos tipos na noite paulistana e durante o percurso Carlão faz inúmeras homenagens a filmes e cineastas: há os cartazes de O Tigre de Bengala, de Fritz Lang, e Capacete de Aço, de Samuel Fuller; ou o nome de um palestrante, cujo nome é Dreyer, homenagem ao renomado cineasta dinamarquês Carl T. Dreyer; além de o filme ser um tributo a Luis Sérgio Person e também prestar homenagem ao poeta e teórico do surrealismo André Breton.

Com tantas citações eruditas, a comparação com o cinema de Jean-Luc Godard parece inevitável, até porque Carlão cresceu acompanhando os trabalhos do enfant terrible da Nouvelle Vague. Era, obviamente, um trabalho arriscado e bem pouco popular, até por se distanciar de outras obras de maior apelo que o cineasta havia dirigido, como A Ilha dos Prazeres Proibidos (1979) e O Império do Desejo (1981), que tinham o erotismo e a nudez como chamarizes para a audiência da época, muito embora fossem trabalhos que se esquivaram de maneira inteligente da censura imposta pelo regime militar da época para falar de questões políticas. Já Filme Demência foi realizado em outras circunstâncias, quando o Brasil já tinha se livrado dos militares, mas que passou a ser assombrado pelo monstro da inflação.

O que não impede que o filme também não tenha alguns momentos atraentes, no sentido erótico mesmo, como a sequência inicial com Imara Reis, ou os momentos em que o personagem encontra as prostitutas da noite, ou quando é assediado por uma vizinha da fábrica de cigarros. Mas o que mais chama a atenção é a pequena, mas radiante presença de Vanessa Alves, essa moça linda que continua sendo uma espécie de amuleto para o cineasta, tendo trabalhado com ele em diversos outros filmes. Filme Demência pode até não ser o filme preferido de Carlos Reichenbach para muita gente, mas é com certeza indispensável para quem deseja saber mais sobre esse gigante de nossa cinematografia.

O filme ainda conta, no elenco, com Julio Calasso, Fernando Benini, Rosa Maria Pestana, Orlando Parolini, Alvamar Taddei, Benjamin Cattan, Renato Master, Roberto Miranda e o poeta Cláudio Willer.

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