O Baiano Fantasma

Dossiê Júlio Calasso


O Baiano Fantasma
Direção: Denoy de Oliveira
Brasil, 1984.

Por Edu Jancz

Lambusca (José Dumont) é mais um paraibano que desembarca em São Paulo a procura de uma vida melhor. Afinal, como ele diz, é aqui que está o dinheiro.

Saindo da rodoviária, Lambusca tem o primeiro contato com São Paulo. Vai ajudar um cego a atravessar a rua e tem a sua carteira furtada. Era um falso cego. Como falsos sonhos e convicções Lambusca ainda vai encontrar pelo seu caminho.

Busca a casa do conterrâneo Antenor (Luiz Carlos Gomes). Não é difícil encontrá-lo. Bem como conseguir estadia e alimentação. Ali, ganha a alcunha de baiano, como é conhecido seu conterrâneo Antenor. Que alivia o preconceito: não liga, não, aqui todo nordestino é chamado de baiano.

Disposto a melhorar de vida, deixar de ser quebra galho para ser um profissional de verdade, Lambusca faz Carteira de Trabalho e sai em busca das oportunidades de carreira na cidade grande – que, a princípio, não lhe parece grande, mas cordata e mãe com as mãos abertas para receber novos filhos.

Em seu caminho cruza com Remela (Paulo Hesse), o típico malandro-sabonete. Aquele que descobriu que viver é sempre levar um pouco de vantagem em tudo. Não importa a moral ou o companheirismo. Importa sobreviver.

Remela é empregador de uma quadrilha que cobra proteção a comerciantes e populares em dificuldades. Arranja um emprego para Lambusca. Tudo parece muito fácil. E o ingênuo Lambusca pensa ser funcionário de uma financeira. Em princípio, o dinheiro chega fácil. O jovem paraibano – chamado por todos de “baiano” -, vê crescer os olhos, compra roupas novas e gasta sem muita cerimônia. Aparentemente, está num paraíso!

As coisas mudam.

Um dia, indo trabalhar, Lambusca vê um nordestino sendo espancado pelos capangas da quadrilha para qual trabalha. Em princípio, se mostra corajoso, Esbraveja contra a covardia cometida contra a quem chama de seu conterrâneo. Até que Remela lhe abre os olhos. É cada um por si. Contrariar a quadrilha seria perder os ganhos fáceis. E o conterrâneo – meio envergonhado, meio possuído pela cidade grande – abandona o outro conterrâneo ensanguentado, seguindo os mandamentos de sobreviver pontuados por Remela.

Um devedor, pressionado por Lambusca tem um infarto e morre. Polícia na parada. Surge um retrato falado. Nos jornais a notícia: “Baiano Fantasma é a Causa Mortis”.  Pra complicar, o ingênuo Lambusca resolve não devolver o dinheiro arrecadado no dia. Acredita que pode desaparecer: não é um fantasma?

A Quadrilha joga pesado e coloca capangas e informantes em busca dele. O mesmo faz a polícia! E o desesperado Lambusca, entre gastar o dinheiro fácil e lembrar dos objetivos que o trouxeram em São Paulo, entra em crise. Voltar para casa se apresenta como a melhor forma de fuga.

O Baiano Fantasma é crítica ácida à condição que muitos migrantes enfrentam no embate com a cidade grande do sul. Sonhos logo perdem o brilho e se mostram penitências de longa data. Sobreviver aqui equivale a uma frase dita no final do filme por Lambusca: “A gente vai perdendo pernas, braços e vira um bicho”.

O filme de Denoy de Oliveira, conduzido com maestria e rota ideológica traçada, não é uma ode ao pessimismo. Mas um alerta. Das dificuldades, preconceitos e perda de valores morais que norteiam o sobreviver do migrante numa cidade grande.

O Baiano Fantasma foi premiado como o melhor filme no 12º Festival de Gramado. Bem como o nosso homenageado, Júlio Calasso, na pele de um excêntrico delegado de polícia, que recebeu o prêmio de melhor ator coadjuvante concedido pelo Governo do Estado de São Paulo.

No final do filme, Denoy de Oliveira presta homenagem a dois homens do norte que amam a sua cultura. Ao seu pai, Francisco Xavier, que identifica como paraense, sapateiro e anarquista. Bem como ao veterano ator Rafael de Carvalho, último filme desse comediante, identificado como paraibano, contador/ator e “soldado do povo”.

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