A Dama do Cine Shangai

Dossiê Júlio Calasso



A dama do Cine Shangai
Direção: Guilherme de Almeida Prado
Brasil, 1990.

Por Filipe Chamy


A dama do Cine Shangai possui uma estilização muito denunciatória de suas ambições.

Que não se entenda com isso que o filme se resume a um pastiche do cinema policial, da narrativa noir. Em absoluto. Guilherme de Almeida Prado evidentemente referencia todos esses cânones, mas o faz de maneira consciente a não se prestar ao ridículo papel de paródia. Sim, o filme, as personagens e a trama e os conflitos são estilizados, mas isso não significa resumir-se ao mimetismo, brincar de imitar.

Há uma profunda verdade na honestidade de filmes como este A dama do Cine Shangai. Se é verdade que logo no título já vemos uma citação a Orson Welles, não é menos verdade que, dentro de seu universo e conceitos, este filme também é inventivo, à sua maneira. Peguemos Lucas (Antônio Fagundes) como exemplo: quem é ele? Um detetive durão, como Philip Marlowe? Um cínico de Dashiel Hammett? Um policial apaixonado pelas particularidades das pessoas, como Maigret e tantos outros heróis de Simenon? Não. Lucas é Lucas. Ele carrega um pouco de suas influências, mas resta particular a seu modo. Ele se movimenta com certas condições que o distinguem e simultaneamente lhe dão essa aura abstrata, poética e anacrônica de uma criatura do passado, de um pulp perdido num sebo e que Guilherme de Almeida Prado descobriu por acaso, leu, se apaixonou e filmou.

Do mesmo modo, Maitê Proença, lindíssima em sua arrogante juventude de femme fatale, também é um exemplar desse tipo peculiar de homenagem a um esquema de construção de mundo, que rejeita a cópia fútil e tenta dar sua própria contribuição à história dessa visão; portanto, mais que um trabalho baseado no cinema noir e na literatura clássica policial, A dama do Cine Shangai de fato é um filme policial de orientação clássica. É preciso ignorar rótulos reducionistas e entender que o Brasil quando faz cinema de gênero nem sempre quer mimetizar filmografias estrangeiras; e se aceitamos que Jean-Pierre Melville, sendo francês, fazia ótimos policiais “americanos”, por que a resistência a considerar este filme de Guilherme de Almeida Prado feliz em sua pretensão de desenvolver certo tipo de aventura? Aqui estão as sombras, os caracteres distorcidos, as obsessões, as traições e as surpresas essenciais a seu andamento perfeito.

Nosso homenageado Júlio Calasso Jr. faz apenas uma pequena participação neste belo relato de amor (pois todas as histórias policiais no fundo são histórias de amor), como um capanga de nome “Bira”. Ainda que apareça por, quando muito, trinta segundos, ele é, assim como todos os outros intérpretes do filme — de José Lewgoy a Miguel Falabella, passando por Paulo Villaça — uma peça da engrenagem que faz tudo funcionar. Neste pequeno mosaico, cada figura ou elemento tem sua importância para a harmonia final.

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