As Armas

Dossiê Astolfo Araújo


As Armas
Direção: Astolfo Araújo
Brasil, 1969.

Por Sérgio Andrade

O cinema brasileiro continua nos surpreendendo. Isso se deve, em grande parte, pela visão incompleta que dele temos. Ainda existem muitas brechas e lacunas a serem preenchidas. Nós, da Zingu!, não fazemos outra coisa desde o primeiro número a não ser batalhar pela construção de uma história (de uma historiografia) de nosso cinema.

Vejamos o caso deste As Armas, de Astolfo Araújo, pouquíssimo visto e comentado, tão esquecido que no dia em que escrevo este texto, 15/01/12, nem consta da filmografia do diretor no site da Cinemateca Brasileira. E, no entanto, trata-se de um dos mais corajosos filmes realizados no país, pois tendo sido realizado em 1969, no período mais repressor da ditadura militar, em plena vigência do AI-5, fala de revolução, luta armada e desejo de liberdade.

Começa com dois personagens invisiveis, na barraca de tiro ao alvo de um parque de diversões (vemos apenas o cano das espingardas), reclamando das dificuldades de moradia.

Em seguida passamos a acompanhar César (Mario Benvenutti), motorista de uma organização clandestina comandada pelo Professor (Cavagnole Neto), tendo também como membros sua filha Luiza (Irene Stefânia), o noivo desta, o arrogante Boris (Pedro Stepanenko) e o líder Fernandes (Francisco Curcio). O único amigo de César é o velho porteiro Fernando, desanimado com o emprego. César, apesar do serviço importante e perigoso (tem que carregar documentos secretos), sente-se desprestigiado pelo grupo, mas ao contrário do outro recusa largar o emprego, pois pretende tirar alguma vantagem da situação.

A oportunidade aparece quando, ao ouvir escondido uma conversa do pessoal, descobre que no sítio do Professor encontra-se uma grande soma em dinheiro e armas com as quais eles pretendem enfrentar o exército.

Descoberto pelo Professor, os dois discutem e entram em luta corporal, quando César o mata sufocado e simula a morte como um problema de saúde.

Como a polícia aumentou o cerco à organização, César e Luiza vão se esconder no sítio e ele finalmente acredita poder realizar seu sonho pequeno burguês, conquistando o amor da garota, ficando com o dinheiro e se estabelecendo definitivamente naquele bucólico e tranqüilo lugar. Seu plano, porém, não funcionará como queria, justamente por não compreender o idealismo por um mundo melhor que move certas pessoas.

Produzido por dois pilares da Boca do Lixo, Antonio Pólo Galante e Alfredo Palácios (será por isso que passou despercebido?), para a Data Filmes, empresa de Astolfo e de seu sócio Rubem Biáfora, conta com bela e inventiva (como na cena de amor de César com Luzia) fotografia de Waldemar Lima, montagem do soberbo Sylvio Renoldi , uma trilha musical empolgante do Zimbo Trio e ótimas interpretações de todo o elenco.

A direção de Astolfo enfatiza a atmosfera de medo, de desconfiança, de preocupação que era vivida na época, com polícia, exército ou anônimos suspeitos cruzando o caminho dos personagens.

Na cena final, ele parecia prever o que estava por vir, quando vemos em negativo os revolucionários, um deles carregando um morto nas costas, caminhando por uma linha de trem que não vai dar em lugar algum.

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