Paixão na Praia

Dossiê Ewerton de Castro

Paixão na Praia
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1971.

Por Edu Jancz

“Tua vida nunca mais será a mesma”.

Com essas palavras, Jaques, o marido rico e corrupto, vaticina o futuro da esposa (agora ex-) Débora (Norma Bengell).

Qual vida não será mais a mesma?

Débora e Jaques são ricos, tem uma filha pequena, empreendimentos, um carro luxuosíssimo e bela casa de praia, onde – sozinhos, de forma pretensamente romântica – comemoram e tentam “esquentar” um casamento de nove anos.

Um casamento falido. Sem amor, sem carinho, sem atração. Depois de noite morna de sexo, Débora deixa claro que se não fosse pela filha, pediria o desquite – não tínhamos ainda o maravilhoso divorcio (sancionada em 1977). Um telefonema leva Jaques de Volta a São Paulo: sua empresa foi roubada.

Sozinha na casa de praia, Débora é surpreendida pelos homens que assaltaram a firma do seu marido. O encontro não estava marcado. E daí? Quem disse que os encontros e desencontros do destino tem agenda fixa?  É esse o mote que o filme trabalha: depois desse incidente, a vida de nenhum deles será mais a mesma!

O jovem assaltante Jairo (Ewerton de Castro) é grosseiro.  Ameaça Débora sexualmente, é brutal, mostra rancor e vangloria-se em dizer que praticou o roubo como missão a serviço de um grupo “revolucionário”.  Observem, caros leitores, que o filme é de 1971.  O AI-5 “corre solto”; Brasil ganhou a Copa de 70; o general Médici está no poder; militante e não militantes desaparecem em porões; e a ditadura dá todas as cartas. Cartas que os encontros e desencontros de Paixão na Praia pretendem sutilmente embaralhar.

O outro assaltante, Pedro (Adriano Reys), o chefe do grupo, é encantador e defende Débora do jovem arrogante. Demonstra sua autoridade com ternura. Facilmente, percebe o dilema da jovem esposa. Ela não está com medo. Está infeliz, sem moinhos para combater, vazia!!

O roteiro de Alfredo Sternheim acirra diferenças e força aproximações.  Mudanças. Pinta um clima entre Pedro e Débora. O amor nasce em meio a tantas pedras, iluminado pelas ondas da praia, que pontuam todo o filme.  Numa noite especial, os dois fazem amor e percebem que o destino teceu novos caminhos.

Ao perceber que Pedro e Débora fizeram sexo, o “revolucionário” Jairo não consegue admitir que o seu chefe e mentor intelectual tenha transado com uma simples “burguesinha”, esposa de um capitalista corrupto.  Como resposta ouve: “Desde quando política e amor se misturam?”.

Paixão na Praia tem um trio de intérpretes seguros e competentes.  Adriano Reys  é o chefe que não perde o controle da situação, inclusive com o uso da força. Ao mesmo tempo, se mostra um homem “sedutor”, que “pode mudar”,  quando percebe o amor em Débora. Ela, Norma Bengell,  evolui de ser  mulher destinada a uma vida infeliz, resignada,  até a descoberta de um motivo real  para viver. E o jovem Jairo, nosso homenageado Ewerton de Castro, constrói um personagem conturbado, irritante, mas um contraponto fundamental na trama.

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