O Último Êxtase

Dossiê Ewerton de Castro

 

O Último Êxtase
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1973.
 

Por Heitor Augusto 

Por conta do texto de Sérgio Andrade na edição 49 da Zingu! e da brilhante leitura que Andréa Ormond fez em 2007 no blog Estranho Encontro, serão reduzidas as palavras sobre a mão de Walter Hugo Khouri como autor de O Último Êxtase e numerosas as dedicadas a Ewerton de Castro, alvo do dossiê desta 52ª edição. 

Já em 1973, ano da realização do filme, Ewerton tinha apenas cinco anos como ator profissional, mas já mostrava alguns trejeitos que se tornariam marca registrada nas décadas seguintes, seja no teatro, cinema ou televisão. Especialmente aquele ar meio maroto, que se faz de desentendido, a passeio na vida, que pronuncia os diálogos num tom dubiamente jocoso (“é dureza!”, “mas nós não compramos açúcar?”). 

Neste filme de Khouri, Ewerton cai como uma luva no personagem Jorge, um jovem sempre duro de dinheiro que aceita acampar com sua paquera Marta (Dorothée-Marie Bouvier) e os amigos Marcelo (Wilfred Khouri) e Luci (Angela Valério). 

Em O Último Êxtase, Ewerton é um ator de bordas, um coadjuvante à espreita para dar o bote. Jorge, seu personagem, está à revelia das preocupações de Marcelo (a versão adolescente do alter ego do universo khouriano). Enquanto o amigo quer relembrar o passado, uma memória distante de um período gostoso com a família, acampado no mato, em contato com a natureza, ouvindo a chuva, isolado dos vícios da urbana São Paulo, Jorge está alheio. Não fosse a falta de dinheiro, estaria na praia com outra turma. Restou a opção gratuita do acampamento no mato. 

Enquanto o vazio consciente de Marcelo conduz a ação do filme, Jorge anda inconsciente, pensando apenas em matar o tempo – aliás, o comentário que se segue não traz nenhuma novidade, os filmes de Khouri estão repletos ou de personagens que percebem o tempo e, conscientemente, tentam fazê-lo andar com menos desprazer ou os que se deixam levar pela alienação. 

A burguesia bocó 

O filme adota um tom mais cruel quando um casal de meia-idade (Liliam Lemmertz e Luigi Picchi) acampa, próximo aos quatro amigos, num um charmoso trailer, ao contrário da barraca do quarteto, que se desmancha na chuva. Deste momento em diante, não há mais conciliação possível entre a consciência perturbada de Marcelo e a despretensão de Jorge. Aquele decide peitar o que representa o luxo trazido pelo casal, enquanto este prefere se incorporar, aguardando uma migalha – uma dose de uísque, o corpo da mulher do ricaço… 

O abismo entre os dois amigos fica evidente na parte final. Se ambos começaram o filme juntos, dentro de um jipe, guiando a ação, no crepúsculo de O Último Êxtase certamente estarão separados. Aí não podemos deixar de falar de Khouri, que faz seu cruel comentário da burguesia: vazia, bocó e empobocada, que vai passear de barco no rio, fala de uísque e histórias supostamente interessantes. Nesse momento, o hiato entre Marcelo e Jorge é incontornável. Marcelo parte na garupa de um caminhão, deprimido, consciente, num gesto quase infantil de percepção da perda de um passado idílico. 

Jorge, porém, fica com os ricaços que conheceu na mata. Passeia de barco, dorme no trailer, transa com a mulher endinheirada. Jorge seguirá nadando sem perceber a intensidade de suas braçadas, levado pela corrente. Aguardando uma nova e fugaz chance de acessar o efêmero prazer que o consumo dá. 

É por isso que o jeito meio despretensioso e desligado de Ewerton de Castro, além de seu inconfundível sorriso malicioso, se encaixa tão bem neste incômodo filme de Walter Hugo Khouri.

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