Na Violência do Sexo

Dossiê Ewerton de Castro

 

Na Violência do Sexo
Direção: Antônio Bonacin Thomé
Brasil, 1978. 

Por Leopoldo Tauffenbach 

Ao longo da minha vida fui testemunha de diversas discussões sobre a suposta falta de qualidade de nossa filmografia verde amarela. Um dos argumentos mais utilizados era o que acusava o cinema brasileiro de explorar, além dos limites do tolerável, a nudez e a violência, fosse ela física ou verbal, e não apresentar mais nada, além disso, ao espectador. Claro que até o cinéfilo mais amador irá concordar que a afirmação acima é rasa e equivocada, mas o mesmo cidadão que insiste em recitar esse credo encheria a boca e arregalaria olhos acusadores diante de um filme como Na Violência do Sexo. E talvez não sem razão. 

A obra dirigida por Antonio Bonacin Thomé começa com um casal de recém-casados chegando ao lar. Antes que o ansioso noivo pudesse livrar-se das calças, uma gangue invade a casa em busca de dinheiro e da oportunidade de inaugurar a noiva antes de seu marido. Mas Bené (Ewerton de Castro), um dos bandidos, recusa-se a participar do estupro e abandona a cena do crime. Vendo que essa vida não o levaria a lugar algum, Bené comunica Carlos, o líder da gangue – interpretado com maestria cafajestica por Clayton Silva –, que não mais participaria de seus golpes para poder viver uma vida correta com sua bela namorada. Vingativo, Carlos não aceita a desfeita e resolve violentar e espancar a parceira de Bené como forma de ensinar-lhe uma lição. Tomado de fúria, Bené, outrora bandido de bom coração, irá agora despejar sua ira impiedosa sobre os ex-comparsas.

Tudo vai muito bem até este momento da narrativa, e o cinéfilo mais atento pode encontrar semelhanças no filme de Thomé com duas outras gemas fundamentais do cinema exploitation mundial: Aniversário Macabro, dirigido por Wes Craven e A Vingança de Jennifer, de Meir Zarchi. Lançado no mesmo ano que Na Violência do Sexo, A Vingança de Jenniferk é talvez o melhor exemplar de rape-revenge já produzido. Impossível dizer quem teria copiado quem, se é que tal especulação cabe aqui, mas a verdade é que tanto “Jennifer” como o filme de Thomé apresentam cenas quase idênticas de violência contra uma mulher, seguidos de um plano de vingança contra os perpetradores. Já o filme de Craven só irá pipocar recordações nas mentes iniciadas nos primeiros minutos de Na Vingança do Sexo principalmente por causa da semelhança física e de papéis entre Clayton Silva e o ator estadunidense David Hess, que interpretou o vilão Krug em Aniversário Macabro. Na verdade, Clayton está muito mais para o papel que Hess interpretaria dois anos depois no filme La Casa Sperduta nel Parco, de Ruggero Deodato.

Entretanto, o problema mais evidente do filme é justamente o roteiro, que acaba se perdendo em sua própria trama e acaba comprometendo o bom andamento do filme. O casal do início do filme vai perdendo espaço para o drama de Bené e passa a aparecer esporadicamente, em cenas que parecem não ter mais conexão com a trama principal. Os policiais que surgem para investigar o paradeiro dos “curradores” – como eles mesmos nomeiam – aparentam estar ali mais para acalmar os ânimos da censura da época do que realmente contribuir com a história. Em um determinado momento, um dos policiais lembra o espectador da eficiência e seriedade da corporação, declarando que eles não desistem nunca se for para solucionar um crime. Mas há de se considerar que no contexto do Brasil de 1978, tal frase pode ter uma conotação muito mais sinistra do que nobre. E por sorte, o filme acaba desenrolando os próprios nós no final, deixando ainda uma mensagem de fundo moralista como era comum em muitas obras da época.

Na Violência do Sexo estaria à altura de inúmeras produções estrangeiras de exploitation, se não fosse pelos deslizes de roteiro que vão se tornando mais evidentes conforme o filme avança. Ewerton de Castro, tímido no início, acaba se mostrando o verdadeiro herói (?) do filme, equilibrando memoravelmente sua personagem com o vilão de Clayton Silva, deixando o espectador com uma estranha sensação de “quero mais”. E o nosso crítico inexperiente, mencionado no início do texto, fica agora mais sem razão ainda. Nosso cinema não explorou sexo e violência mais do que qualquer outro cinema do mundo. Ao contrário, sempre mostrou que é capaz de competir com os grandes. O problema dos críticos do nosso cinema é a falta de referências, até mesmo do cinema estrangeiro que eles parecem jurar defender. E ao menos entre obras de exploitation, Na Violência do Sexo mostra-se digna, e não fica devendo absolutamente nada para ninguém.

 

Leopoldo Tauffenbach é doutorando em Artes e pesquisador de cinema de gênero. Curador e jurado de mostras cinematográficas, atualmente assiste o cineasta Carlos Reichenbach no projeto Sessão do Comodoro, colabora com o blog O Dia da Fúria e vez ou outra edita o blog Cine Demência.

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