Kuarup

Dossiê Ewerton de Castro

 

Kuarup
Direção Ruy Guerra
Brasil, 1989.

Por Ailton Monteiro

Durante os últimos anos da Embrafilme, antes de Fernando Collor extingui-la e levar a produção cinematográfica nacional a zero, os filmes brasileiros do período muitas vezes apelavam para um enorme elenco de globais, de preferência belas mulheres nuas que serviam como um atrativo para a audiência, uma maneira quase desesperada de conseguir repetir o sucesso comercial de anos atrás. Kuarup, de Ruy Guerra, baseado na obra de Antonio Callado, se insere perfeitamente nesse período. Difícil não ver o filme e não se deliciar com a nudez exuberante de Cláudia Raia, Maitê Proença, Fernanda Torres e Cláudia Ohana, em cenas de nudez e sexo com o protagonista vivido por Taumaturgo Ferreira, ou com um índio, caso de Cláudia Raia.

Porém, ainda que esses elementos continuem sendo bastante atraentes, é possível ver Kuarup como uma obra que tem um encanto que vai além da sexualidade. O filme é representativo de um momento especial da democracia brasileira. Ao se passar entre os anos de 1954 e 1964, alternando os dois momentos e mostrando as mudanças passadas pelo Padre Nando (Taumaturgo Ferreira) e pelo próprio país ao longo da narrativa, o filme é também uma espécie de grito de libertação, explicitado no final, quando letreiros falam do período do regime militar e de que só naquele ano, 1989, eleições diretas para Presidente da República estariam ocorrendo.

No início do filme, vemos o padre Nando em crise existencial. A nudez o perturbava, fazia-o se autoflagelar. E que beleza que é a cena em que a personagem de Maitê Proença, uma inglesinha passando por Recife, flagra-o no ato, e, descobrindo o motivo, ri, tira a roupa e faz sexo com o padre. Que naquele momento deve ter finalmente encontrado a graça. A vida de Nando mudaria a partir de então, embora ele demorasse um pouco para se livrar da batina. Mas pelo menos, ele pôde partir para o Xingu sem ter medo da nudez das índias.

 

E por mais que o lugar não seja nada confortável para o homem branco, no momento em que o grupo chega, o Xingu vai se transformando numa espécie de festa, embora essa festa não dure para sempre. E ainda que Nando seja o foco do filme, é Cláudia Raia que, com sua personagem que resolve se despir não só das roupas, mas também dos valores da civilização branca, rouba o filme até mesmo quando está ausente.  

Ewerton de Castro, no papel de Lauro, também marca presença, mas com um elenco daquele porte e com uma galeria de personagens tão rica, o seu, embora muito bem interpretado, se torna muitas vezes esquecido.

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