As Delícias da Vida

Dossiê Ewerton de Castro

As Delícias da Vida
Direção: Maurício Rittner
Brasil, 1973.

Por Edu Jancz

As Delícias da Vida, filme dirigido pelo escritor, jornalista, crítico e professor de cinema,  Maurício Rittner, pega uma carona na pornochanchada, mas tem em seu DNA elementos que  o tornam único de sua espécie.

É um filme dentro do filme. Um filme que focaliza o universo das novelas, mostrando seus bastidores. É importante perceber que em 1973, ano de sua realização, temos uma pequena percepção do poder dessa dramaturgia que lentamente invadia – e invade – lares brasileiros e as vidas de todos nós.

Em seu filme, Maurício Rittner se mostra um analista “sem papas na língua”, vaticinando situações e relações que atualmente – em 2012 – determinam os padrões globais e as relações entre publicidade, dramaturgia e tirania dos donos de emissoras ou seus representantes, como foi o senhor Boni, José Bonifácio de Oliveira – curiosamente badalado pela mídia e jornalistas – como vi em 19/12/2011, no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Em As Delícias da Vida, um jovem autor de novelas (Enio Carvalho) sofre observando seu texto ser modificado por um “Cidadão Kane” (Silvio Zilber) influenciado pelo seu patrocinador, o dono da cera Regina. Sua namorada, Eva, a então deliciosa Bete Mendes, faz novelas sonhando com outros palcos. O pai de Eva, interpretado por John Herbert – excelente como um canastrão preocupado somente com a grana e nem aí para a felicidade de sua filha – prepara um casamento encomendado com um nobre alemão, Adolf (Ewerton de Castro).

Numa época em que televisão era feita ao vivo, curtimos deliciosos comerciais interpretados pela jovem Selma Egrei linda e muito “caliente” – mesclado com o comercial muito curioso para a época, e, inclusive, para os dias de hoje, 2012. O comercial, em suas primeiras tomadas, mostra a cidade de São Paulo. O locutor, com voz empostadíssima, diz: “Fuja da poluição da cidade grande”.  Mude-se para o condomínio “x”, a apenas 2.200 quilômetros de São Paulo. Sem dívida, visionário e profético.

Em outro seguimento, As Delícias da Vida abandona a cor e mostra a cidade de São Paulo em 1973, no Viaduto do Chá, com depoimentos do público sobre a televisão.  Não são muito diferentes de entrevistas que vemos em 2012.

Ver As Delícias da Vida é curtir pequenas sequências em que aparecem figuras extremamente emblemáticas do cinema e da televisão. No início de carreira, Eva dança no programa do Chacrinha. Matamos a saudade do Velho Guerreiro e suas meninas. Walter D’Avila faz uma ponta como um pinguço que se comunica por mímica.

Vera Fischer e Perry Sales completam o elenco principal. Ela, belíssima e gostosa, como uma atriz sem caráter que faz de tudo para subir na vida. E Perry, sempre exagerando em seus maneirismos e trejeitos, interpreta um jornalista honesto, mas nem tanto.

A impressão que fica vendo As Delícias da Vida e que seu realizador, Maurício Rittner, tinha muitas ideias críticas e as misturou num mesmo caldeirão.  O prato ficou confuso, sem gosto definido, principalmente para o público-alvo do filme. Resultou num produto híbrido, como outros filhos híbridos que pegaram carona na pornochanchada para poder existir.

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