Tensão no Rio

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz

Tensão no Rio
Direção: Gustavo Dahl
Brasil, 1984 

Por Daniel Salomão Roque 

O Bravo Guerreiro, filme de 1969 que marcou a estréia do crítico Gustavo Dahl na direção de longas-metragens, acompanhava a cooptação de um jovem militante esquerdista (Paulo César Pereio) pelos partidos da situação, desnudando sua espiral de decadência numa série de planos austeros que emprestavam cinismo e melancolia às falas panfletárias das personagens. Ao final do longa, víamos um Pereio letárgico, olhando a si mesmo no espelho enquanto cutucava o céu da boca com o cano de um revólver. 

Entre esse filme e Tensão no Rio, temos um intervalo de vinte e cinco anos e curiosas conexões. Tanto num caso quanto no outro, Dahl parece nos dizer que a política é o mais rápido dos atalhos para a morte. As obras, contudo, atingem esse ponto através de caminhos distintos, e divergem não apenas em suas respectivas texturas, mas também na maneira como se colocam diante dos personagens e nas proporções que as atitudes deles adquirem. 

Tensão no Rio desloca para as margens a questão do drama individual para lidar com grandes conspirações continentais, e o faz com um senso de humor ausente em O Bravo Guerreiro. Logo de cara, um letreiro alerta o espectador de que qualquer semelhança entre o enredo e a realidade é mera coincidência: ironia nada sutil para uma obra que, em pleno período de redemocratização, abordava os comprometedores meandros das relações externas entre o Brasil e Valdivia – um país imaginário da América do Sul. 

Atrelado a esse sarcasmo, e indissociável dele, existe um teor referencial que atravessa o longa do início ao fim. Como protagonistas ou atuando em minúsculas pontas, desfilam inúmeros mitos do cinema nacional (Anselmo Duarte, Norma Bengell, Dina Sfat, Paulo César Pereio, dentre outros), dispostos na tela como quadros numa galeria, e tais participações encaminham o filme para tonalidades diversas. 

As convenções do thriller político, contudo, são predominantes, e se fazem presentes já na primeira cena. Um casal de meia-idade conversa sobre banalidades do cotidiano em frente a um prédio oficial do Rio de Janeiro; eles se despedem, e o marido (Raul Cortez), ex-ministro de Valdivia exilado em território brasileiro, entra no automóvel, sem saber que está prestes a sofrer um atentado. Então vem a explosão, sucedida por um close nas feições desesperadas da esposa, interpretada pela musa de Walter Hugo Khouri, Lilian Lemmertz – ela não torna a aparecer em momento algum, mas é difícil esquecer seu rosto. 

Dali em diante, o presidente do tal país imaginário (Anselmo Duarte, encarnando uma caricatura dos generais latino-americanos) se torna o epicentro da obra: o episódio ocorre durante sua visita oficial ao Brasil, e detona uma crise que altera todo o equilíbrio político vigente. Ao seu redor transitam amantes, adidos, subordinados, jornalistas e desafetos, cada qual com suas próprias misérias e patologias – e estas, inevitavelmente, agem como mecanismos de morte e exploração midiática.

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