O Gigante de Pedra

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

O Gigante de Pedra
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1954.

Por Ana Martinelli

Após uma breve experiência na Vera Cruz como assistente de direção na preparação de O Cangaceiro, de Lima Barreto, um jovem aspirante a diretor chamado Walter Hugo Khouri realizou, de 1951 a 1953, com todas as dificuldades de uma produção independente, seu primeiro filme: O Gigante de Pedra.

Rodado na Pedreira Cantareira, periferia de São Paulo, o filme conta a história do triângulo amoroso entre Belinha (Irene Kramer), o capataz Miguel (Paulo Monte) e o operário Vicente (Fernando Pereira), em meio ao pó e as condições insalubres daquele ambiente, esmagados pela presença do gigante, que é a própria pedreira. Uma explosão causa a morte do pai de Belinha, que traumatizada com o local e os ruídos violentos de dinamite perde a memória, acirrando a disputa e as intrigas dos dois homens pela conquista de seu amor.

Exibido no 1º Festival de Cinema Internacional do Brasil em 1954, o mais jovem diretor e produtor da época foi apontado pela crítica como uma grande promessa, por ter conseguido com os parcos recursos que dispunha terminar a fita, e pelas soluções cinematográficas encontradas que demonstravam domínio da linguagem e talento como realizador.

Considerado perdido, durante muitas décadas o único registro audiovisual da obra era o trailer de pouco mais de 3 minutos. Em 2003, na ocasião de uma mostra retrospectiva em comemoração aos seus 50 anos de cinema, no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, e meses antes do seu falecimento, dois rolos do filme foram encontrados no arquivo da Cinemateca Brasileira.

Os rolos 1, sem aúdio, e o 5 somam 20 minutos de filme. Insuficiente para uma análise, mas recortes de jornais, entrevistas e críticas da época ajudam a entender o contexto e as limitações enfrentadas pelo cineasta estreante. Numa matéria do Diário de São Paulo (17/02/1954), Khouri revela abertamente as dificuldades da produção: “Há deficiências técnicas na minha fita. Foram causadas pelas enormes dificuldades que encontrei. Nenhuma vez pude fazer traveling, por falta de material. Usava maquinário velho. As interrupções foram frequentes. Era preciso esperar os atores profissionais terminarem outras películas para poder continuar. A luz, que varia conforme as estações, também foi fator desfavorável. Os iluminadores foram substituídos sete vezes e a câmera não tinha proteção nenhuma, enchendo-se de poeira”.

Mas a verdade é que quando as luzes se apagam, o importante é o que se vê na tela.  À falta dos movimentos de travelling, o diretor optou por long shots. Na tela, a pedreira filmada de longe e estática torna-se uma presença monstruosa e o cenário ainda mais inóspito, elevando o gigante à condição de personagem fundamental. Elementos estáticos, naturais, o cenário onde a ação se desenvolve, e a relação deles com seus personagens serão explorados em toda a filmografia do diretor.

As interrupções constantes e a descontinuação do trabalho de filmagens com os atores principais podem explicar os poucos diálogos, ainda que na época fosse muito mais comum a dublagem em estúdio à captação direta do som, mas abre espaço também para o uso do off. O único exemplo existente de outra característica khouriana, o tom intimista encontra-se no rolo 5: ao explicar a perda de memória de Belinha, visivelmente infantilizada pelo trauma, na cena ela brinca com um espelhinho alheia ao mundo exterior.  A aridez da pedreira e do mundo de fora contrasta com a fragilidade humana nos personagens frequentemente capturados em close ou em enquadramentos fechados.

Com todas às dificuldades e as limitações, O Gigante de Pedra é bem recebido pela crítica, considerando-o como um filme de direção e apontando várias das soluções criativas do autor para os problemas de produção.

Na crítica “A Façanha de um jovem diretor de 21 anos”, F. Tambellini, escreve no Diário de São Paulo: “Vemos em ‘O Gigante de Pedra’ um autêntico acontecimento no panorama do cinema nacional, por múltiplos aspectos. (…) O filme em todo o seu desenvolver revela consciência, função e propósito em todos os seus aspectos formais. Quer isto dizer: posse da linguagem cinematográfica. Walter Khouri, com a sua sensibilidade, bom gosto, inteligência e senso criador de cinema, certamente se lançará em novos trabalhos, agora também de experiência feito.”

Não é raro que um diretor com uma longa carreira, neste caso 26 longas, tenha sua “herança maldita”, e Khouri nunca escondeu que o considerava seu pior filme. Quando o que restou de O Gigante de Pedra foi recuperado, telecinado e exibido ao público, o diretor declarou sem nenhuma cerimônia que preferiria que o filme ficasse perdido para sempre.

Tenho enorme respeito por Khouri, como cineasta e como pessoa. O conheci pessoalmente e tivemos uma pequena convivência durante parte da minha infância e começo da adolescência, graças à relação profissional e de amizade entre ele e o meu pai, Sérgio Martinelli, mas discordo radicalmente de sua posição.

Ainda que na época, entre meados dos anos 1990 até 2003, eu fosse muito jovem para entender sua contribuição ao cinema brasileiro, hoje, como cinéfila e pesquisadora, sinto imensa tristeza quando me deparo com um filme “perdido”, não somente nesse caso específico. Espero que em algum lugar, um dia esse filme seja encontrado, recuperado e que quem tiver interesse, como eu, possa finalmente vê-lo, mesmo que contra a vontade de seu criador.

Ana Martinelli é jornalista, crítica e pesquisadora de cinema. Escreveu e editou o canal de vídeos no site Cineclick, e colabora para a revista Tela Viva, site da TPM, entre outros.

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