Patriamada

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz

Patriamada
Direção: Tizuka Yamasaki
Brasil, 1984. 

Por Adilson Marcelino 

Patriamada, dirigido por Tizuka Yamasaki, é filme feito no calor da hora. E por isso, estão aí alguns deslizes, e, principalmente, seus acertos. O momento? A campanha das Diretas Já, que mobilizou multidões pelo Brasil afora em 1984 – o movimento começa no ano anterior – exigindo eleição democrática para presidente do Brasil, depois de duas décadas de ditadura militar.

A cineasta juntou sua equipe de técnicos, mais os atores Walmor Chagas, Débora Bloch e Buza Ferraz, e saiu a campo para registrar a história sendo feita in loco. Convocou também Alcione Araújo para criar o roteiro que unisse ficção e realidade. Daí, Walmor virou Rocha, um empresário com ideias progressistas – aparentemente inspirado em Antônio Ermírio de Moraes; Débora é Carolina, uma jornalista de esquerda  – possivelmente petista, como Rocha a identifica, partido formado poucos anos antes e de ferrenha oposição ao regime militar; e Buza Ferraz é Goiás, um cineasta que quer fazer um filme com a cara do Brasil.

Na interessante mistura entre realidade e ficção, Débora e Buza percorrem comícios, como o histórico da Candelária, no Rio de Janeiro, realizado depois do gigantesco ocorrido em São Paulo, entrevistam políticos – como Lula e Ulysses Guimarães -, artistas – Lucélia Santos, Sônia Braga – e anônimos, e vão à Brasília participar da frustrada votação das Diretas e depois a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral. O mesmo ocorre com o empresário de Walmor, que discursa em encontros políticos reais, conversa com Tancredo Neves, políticos e autoridades.

No entrecho puramente ficcional, os três personagens têm suas histórias cruzadas, já que a repórter se apaixona pelo empresário, um homem casado, e na outra ponta o cineasta também se apaixona pela amiga jornalista. Os deslizes de Patriamada estão aí, pois nem sempre essas relações são retratadas em profundidade, ainda que não tirem o filme do prumo.

A personagem de Débora sintetiza os anseios frustrados de gerações ao ver o movimento das Diretas não se consolidar na imediata eleição livre, e, ao mesmo tempo, tendo que se engajar, mesmo com profundas reservas, na indicação de Tancredo, já que a outra opção era o eternamente nefasto Paulo Maluf.

Ainda na ficção, há a família de Rocha, formada pelos filhos interpretados por Ewerton de Castro, Ernesto Piccolo e Julia Lemmertz, e pela esposa na pele de Lilian Lemmertz. A atriz faz aqui sua última participação no cinema, já que morreria em 1986, um ano após o lançamento do filme – realizado em 1984, Patriamada é lançado no início de 1985. Lilian Lemmertz e Julia são mãe e filha na trama, a primeira como uma mulher amarga que não compartilha com as ideias progressistas do marido, aliando-se ao filho ambicioso e escroque interpretado muito bem por Ewerton de Castro. A personagem de Lilian é pequena na trama, e há ali muito pouco do que acostumamos ver em suas interpretações memoráveis.

Mas é no registro real do turbulento momento político brasileiro, ainda que pelas mãos de personagens ficcionais, que está o grande vigor de Patriamada. É possível ver nitidamente a emoção real de Walmor, Débora e Buza vivendo em meio ao olho do furacão, sentimento de total veracidade para quem participou daqueles tempos e que é passado para quem está do lado de cá na plateia.

Patriamada é da primeira e grande fase de Tizuka Yamasaki, formada por Gaijin – Caminhos da Liberdade (1980) e Parahyba Mulher Macho (1983)

 

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