Os Amantes da Chuva

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz


Os Amantes da Chuva
Direção: Roberto Santos
Brasil, 1979. 

Por Daniel Salomão Roque 

Assistir Os Amantes da Chuva é como acreditar piamente numa promessa que se revela falsa. A primeira metade do filme captura o olhar do espectador e nos induz à apreciação compassiva do anonimato, da vida cotidiana, dos pequenos prazeres e das expectativas singelas, estabelecendo uma cumplicidade brutal entre o casal que dá nome à obra e quem os assiste. Do meio para o fim, o filme percorre o caminho inverso e adota um maniqueísmo simplificador que, à custa do empobrecimento da própria narrativa, força a barra em direção à tragédia. 

O encantamento de seus momentos iniciais decorre, sobretudo, da maneira pulsante e afetiva com a qual Roberto Santos se debruça sobre a cidade de São Paulo, em cujos pontos de ônibus um metalúrgico (Helber Rangel) e uma auxiliar de enfermagem (Bete Mendes) se conhecem, apaixonam-se e passam a se encontrar diariamente. Chove o tempo inteiro, e debaixo da água pessoas vêm e vão, conversas banais ocorrem, estabelecimentos abrem e fecham. Em algum boteco, bêbados felizes escutam um grupo de chorinho. 

Toda a primeira parte se baseia nesses momentos, que são intercalados com os bastidores de um canal televisivo em crise financeira: o meteorologista não acerta uma única previsão, os patrocinadores se enfurecem, o diretor se exaspera. Cabe a um jovem repórter e à secretária da emissora (Lílian Lemmertz) a resolução do problema – uma série de reportagens onde os namorados são apontados como responsáveis pelos constantes temporais. Para que a água caia, basta que os dois se encontrem. 

Simples coincidência ou fenômeno paranormal, o fato é que a conjunção entre a natureza e o relacionamento amoroso dos protagonistas dá ao filme um caráter mágico e fatalista. Pontos de ônibus via de regra são locações de pequenos trechos que servem tão somente para ligar as pontas entre cenas onde as coisas realmente “acontecem”; na primeira metade de Os Amantes da Chuva, são o foco de toda a ação, e esta se desenvolve em torno de duas pessoas absolutamente comuns, desprovidas de qualquer atributo idealizado. Noutras obras, tipos assim não respiram – são meros figurantes estereotipados, ou marionetes sociais. Aqui, suas rotinas, tão simples e ao mesmo tempo tão misteriosas, resvalam na metafísica e ocupam a tela inteira. O metalúrgico e a auxiliar de enfermagem parecem agentes de sua própria existência. 

Mas apenas parecem. Em sua metade final, o filme trata basicamente de desmistificar a primeira, o que acaba passando por uma alteração de ritmo, enfoque e caracterizações. Com o sucesso das reportagens, o casal se torna nacionalmente conhecido, assina um contrato milionário com a emissora, passa a estrelar os comerciais de um antigripal e, daí em diante, sabemos que é uma questão de tempo para que a crise amorosa surja, o corporativismo mostre sua verdadeira face e nossa paciência se esgote com o show de caricaturas no qual a obra se transforma. 

Embora não seja o único longa promissor a ir perdendo o fôlego ao longo da projeção, Os Amantes da Chuva se destaca pela idiotização repentina de dois personagens fascinantes e pelo abandono de um universo orgânico em detrimento da bidimensionalidade. Em outras palavras: um desperdício. 

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