Paixão Perdida

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

Paixão Perdida
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1999.

Por Adilson Marcelino 

Em Paixão Perdida, Myla Christie é Ana, a nova enfermeira contratada para tomar conta de Marcelinho, filho do rico empresário Marcelo, que se encontra em estado quase catatônico depois de ter presenciado a morte da mãe em um acidente de carro. Praticamente desacreditado de cura pela medicina, que não encontra nenhuma lesão no garoto, resta a Marcelino ser cuidado 24 horas pela enfermeira e pela governanta. Sua rotina é marcada por remédios para dormir ineficazes e banhos de sol no jardim da casa.

Todos acreditam que Marcelinho está assim porque quer, porque desistiu de reagir – mas não de viver, já que se alimenta, como observa inteligentemente a governanta – depois que sua amada mãe se foi. Mas com a chegada de Ana as coisas começam a mudar e pequenas reações de contentamento surgem. Só que o garoto terá que enfrentar a disputa com o pai, que também se interessa pela enfermeira.

Derradeiro filme de Walter Hugo Khouri, Paixão Perdida trafega na circunferência dos duplos: estão lá Marcelo/pai e Marcelo/filho; estão lá Ana/mãe e Ana/enfermeira. E, claro, estão também outros símbolos que marcaram a obra do cineasta como a filha Berenice e a pedra de Itatiaia.

Como se sabe, Marcelo é o personagem que circula por grande parte da obra khouriana e que tem como marca de caráter sua obsessão por encontrar no prazer sexual todas as respostas para sua angústia existencial. Angústia e vazio que estão intimamente ligados ao rompimento de sua ligação com a mãe – simbólica e aqui também física. A tal paixão perdida do título.

Em Paixão Perdida está o desdobramento desse estado de coisas.

O Marcelo pai de Antônio Fagundes é o empresário poderoso que tenta ludibriar seu tédio fingindo romance com a namorada insegura e possesiva Rute de Paula Burlamaqui e tentando abater uma nova presa na pele da enfermeira Ana de Mylla Christie. Isso sem abrir mão, claro, de situar-se em universo predominantemente feminino, aqui simbolizado pela presença da filha Berenice de Andréa Dietrich, e da governanta Matilde de Zezeh Barbosa.

Já o Marcelo filho de Fausto Caroma está em estado primitivo de abandono e dor pelo rompimento com a mãe, a também Ana de Maitê Proença, morta em um acidente de carro em que ele estava junto e ficou preso sozinho durante cinco horas vendo a sua amada sem vida. Marcelino revive a mãe o tempo todo, seja no jardim, no quarto de dormir e mesmo no único passeio em que sai com a enfermeira.

A Ana mãe desfila diáfana pelas suas memórias sem dizer qualquer palavra. A não ser em um único momento, plenamente sintomático, em que balbucia “meu filho, meu filho”. Mais que sintomático também a presença de uma grande pedra no jardim da casa, e também em um vídeo sobre um templo budista, numa alusão direta não só ao grande trono em pedra de Atibaia onde Barbara Laage se refugiava com o filho em O Corpo Ardente – e que vai aparecer em outros filmes, como Eros e Forever – como também como metáfora para o próprio estado em que se encontra encarcerado e que faz Mylla Christie perguntar “por que Marcelinho? por que?”.

Fora Marcelo, os homens têm pouquíssimas chances nas tramas em que ele está presente e em Paixão Perdida não é diferente. As loiras têm cadeira cativa na filmografia khouriana e aqui são personificadas pelas presenças de Paula Burlamaqui e Andréa Dietrich.  O grande destaque fica para Zezeh Barbosa, perfeita como a governanta Matilde – sua expressão de ódio/inveja/ rancor para Ana na cena do soverte com Marcelino impregna a tela em máxima potência, além do divertido/perturbador tom alcoolizado em crescente em outras cenas.

Mylla Christie e Maitê Proença são as Ana da vez. Mylla é bela e boa atriz, mas erra um pouco quando força o carão a la Khouri; já Maitê, ainda que também não se furta a encenar os mesmos carões – que em Lilian Lemmertz e Selma Egrei, por exemplo, soam tão naturais – acerta mais, pois tem persona absolutamente cinematográfica, como os filmes de Guilherme de Almeida Prado já provaram mais de uma vez.

Como adendo, uma impressão que acontece não na cena, mas do lado de cá: uma dor subterrânea de quem assiste ao filme e tem, o tempo inteiro, também a sensação de abandono, mas aí por saber que não teríamos mais novos filmes do mestre.

 

 

 

 

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