Lição de Amor

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz

Lição de Amor
Direção: Eduardo Escorel
Brasil, 1975. 

Por Sérgio Andrade 

Bela e fiel adaptação do romance (ou idílio, como prefere o autor) Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade. Alguns poderão reclamar do tom mais sério do filme, ao contrário do estilo irônico ou bem humorado do original, ou lamentar a ausência de algumas passagens, como a hilária viagem de trem. Por outro lado muitos diálogos e situações são facilmente reconhecíveis. Claro que numa adaptação, algumas coisas devem ser deixadas de fora para caber numa duração de 80 minutos e não vamos ficar fazendo comparações entre livro e filme. O importante é que os roteiristas, o diretor Eduardo Escorel e Eduardo Coutinho, mantiveram a essência dessa obra-prima de nossa literatura. Que trata da iniciação sexual de um adolescente de família burguesa por uma senhora alemã, na São Paulo dos anos 20. 

Na primeira cena já vemos Felisberto Souza Costa, rico fazendeiro, contratando os serviços de Elza por oito contos. A questão do dinheiro é importante, pois Fräulein, como gosta de ser chamada, deixa claro que se trata de um acordo comercial que ela cumprirá rigorosamente. 

O fato é que ela entra nessa mansão de Higienópolis, onde se passará por professora de piano e alemão para as três filhas e um filho, Carlos, do casal Felisberto e Laura, até concretizar seu objetivo de dar uma lição de amor ao rapaz e, feito isso, provocar a inevitável separação. O problema é que os sentimentos humanos não são estanques e nos casos de amor alguém sempre sairá machucado, senão mesmo todos os envolvidos.

Realizado com muita sensibilidade o filme capta muito bem o espírito da época, criticando a hipocrisia social que faz com que um pai de família contrate uma profissional para fazer sexo com o filho dentro de sua casa por medo que se envolvesse com drogas e prostituição, sem saber que ele já havia transado com uma prostituta da Avenida Ipiranga. E confrontando o pragmatismo alemão ao comportamento emocional do brasileiro. 

Com ótimas e premiadas reconstituição de época de Anísio Medeiros (nem se percebe que foi filmado em Petrópolis), fotografia de Murilo Salles e música de Francis Hime, Lição de Amor demonstra o apuro visual do diretor Escorel, que infelizmente no terreno da ficção ficou limitado, depois deste, apenas mais dois longas (Ato de Violência e O Cavalinho Azul) e um episódio de Contos Eróticos

E se Marcos Taquechel no papel de Carlos não compromete, mas também não se destaca, o filme traz quatro interpretações soberbas: William Wu como o mordomo Tanaka, com quem Elza tem uma relação de amor e ódio; Rogério Fróes como o duro, mas também carinhoso Felisberto, e Irene Ravache (melhor atriz coadjuvante pela APCA) como a amorosa e compreensiva Laura. 

Pairando acima de todos está Lilian Lemmertz, dando vida a uma das melhores personagens femininas criadas em nossa literatura, ganhando com isso mais do que merecidos prêmios de melhor atriz em Gramado, Coruja de Ouro do INC e Governador do Estado de São Paulo. 

Num dos muitos momentos em que se dirige diretamente ao leitor, Mario de Andrade diz que tem 51 leitores, contando com ele, e cada um é livre para criar sua própria Elza.

Depois de assistir ao filme, ninguém conseguirá imaginar outra Fräulein que não a criada por Lilian.

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