O Corpo Ardente

Dossiê de Aniversário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz

 

O corpo ardente
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1966.
 

Por Leo Cunha 

Márcia vaga lentamente pela mansão, deslocada em sua própria casa. No chão da sala, o filho reclama de um projetor que não quer funcionar. Lá fora, no terraço, o baile rola solto ao som de um grupo de jazz. Alguns convidados elogiam, outros debocham da festa. E Márcia, o que está achando? “Mais ou menos”, ela responde distante e desinteressada. Assim conhecemos a protagonista de O corpo ardente, de Walter Hugo Khouri, filme de 1966. 

Interpretada por Barbara Laage, Márcia parece um fantasma, alheia a tudo que a cerca. A câmera acompanha sem pressa aquela figura muito loura, toda vestida de branco, sempre sozinha e quase muda. Na primeira parte do filme, Khouri vai mostrá-la quase sempre de longe, ou por trás de uma grade, um vidro, uma vitrine ou folhagens, evitando a sensação de proximidade, de fisicalidade imediata. Mais tarde saberemos o que perturba Márcia: a sensação de um corpo ardente. O seu próprio corpo, mas também o de um cavalo lindo e fogoso, livre e viril, pelo qual se fascinou, algum tempo antes, na fazenda da família. 

Num flashback, vemos Márcia viajar com o filho para a casa da família, em Itatiaia, no alto da serra, lugar onde passou os melhores dias da infância. Ali, porém, ela depara não apenas com a paisagem imutável de sua memória, mas também com o belo corcel negro, por quem sente uma forte atração, a ponto de ficar quase hipnotizada. Pelas lentes de Khouri, acompanhamos o olhar de Márcia passear por todo o corpo do animal, longas e repetidas vezes. O bicho escapou do dono, que o procura por toda a fazenda. Para encontrá-lo, o dono explica para Márcia, que vai usar uma estratégia infalível: trazer uma égua no cio. “Quando o cavalo sentir o cheiro vai aparecer, com certeza”. A égua no cio logo aparece: é muito branca e tem longas crinas louras, numa analogia evidente à figura da própria Márcia. 

Este cio, este corpo ardente, não tem lugar ali na mansão do Rio, ao lado de um marido fútil e de “amigos” que desprezam o casal. “Vamos destruir tudo e levar apenas os quadros”, provoca um deles, sem saber que Márcia o está escutando, no dia do baile. “Afinal, nós mesmos é  que obrigamos o casal a comprar esses quadros.” Para engalobar o marido de Márcia a adquirir mais um quadro para a coleção, os amigos apelam a uma retórica rebuscada de juiz de arte. Diante de uma tela abstrata, criada por artista oriental que pinta ao mesmo tempo com as duas mãos e a boca, um dos amigos dispara: “Não existe evolução. Neste caso, o informalismo é uma consequência inevitável do nosso niilismo radical, onde as deformações cromáticas e os fundos ambivalentes refletem claramente a atitude estética do homem moderno, ou seja, a descrença que é ao mesmo tempo uma tentativa de crença, porém com impulsos abstratos e autodestrutivos.” A ironia – não do amigo, que parece acreditar em seus chavões, mas ironia do próprio Khouri – é amplificada pelo fato de a imagem ser em preto e branco. 

Márcia, por sua vez, pouco se interessa pelos presentes do marido, talvez sentindo-se, ela mesma, mais um objeto decorativo na mansão. Ela sabe que o marido tem uma amante e chega a espiá-los passeando pela cidade, de mãos dadas. Interpretada pela estreante Lilian Lemmertz (que, a partir de então, se tornaria a grande musa do cinema de Khouri), a amante também padece do mesmo mal de Márcia: são mal-amadas, são incompreendidas ou desvalorizadas por seus homens, são mulheres que sentem alguma coisa queimando por dentro. 

Márcia tem também um amante, com o qual tenta se empolgar, sem muito sucesso. Seu pensamento e seu desejo estão sempre distantes, ficaram na fazenda de Itatiaia. Para além de remeter à atmosfera de um Antonioni (influência amplamente apontada pela crítica e reconhecida pelo próprio Khouri), é interessante notar também como alguns enquadramentos e opções de montagem se aproximam dos primeiros filmes de Pasolini, como Mamma Roma e A ricota, pouco anteriores a O corpo ardente. 

Vale apontar, ainda, que a impressão de descompasso entre Márcia e o universo que a rodeia é ressaltada, curiosamente, pela dublagem que raramente se sincroniza com os movimentos labiais (Barbara Laage era francesa, ao contrário dos demais atores).

Leo Cunha é professor de cinema, escritor e crítico da revista Filmes Polvo.

 

 

 

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