Copacabana Mon Amour

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz 

 

Copacabana mon amour
Direção: Rogério Sganzerla
Brasil, 1970. 

Por Filipe Chamy 

Tenho a impressão que Rogério Sganzerla quis, após assinar clássicos da autoralidade sessentista do cinema nacional como A mulher de todos, Sem essa, Aranha e o emblemático O bandido da luz vermelha, experimentar um pouco mais a fundo seu humor e sua acidez, chegando a parodiar até o próprio cinema que praticava. 

Neste Copacabana mon amour vemos algumas mudanças de seu já habitual “itinerário”: Paulo Villaça, por exemplo, o “seu Luz”, é aqui um efeminado machista (contradição, paradoxo ou necessidade?), e Helena Ignez movimenta-se em seu arquétipo amorfo de garota inconformada, pária e sensualizada. Também está presente a narração em off, a originalidade na montagem e a direção aparentemente “atabalhoada” mas de marcação rígida e objetivos precisos. 

Surpreende como o humor de Sganzerla está cada vez mais presente; não que não existisse, mas agora ele ultrapassa diálogos e personagens e investe na desestruturação do filme em si, formando com isso sua base e sua própria aparência. O que talvez seja fútil constatar, pois Sganzerla sempre flertou fortemente com a autorreferência. Então é como se em cada filme o cineasta pretendesse rearranjar ideias que já havia exposto, seja por achá-las desatualizadas, incoerentes ou simplesmente porque deseja se divertir. Há um espírito de moleque por trás de cada plano de Copacabana mon amour. O garoto travesso que brinca com as convenções e zomba da superstição e do medo, sendo simultaneamente atraído pelo sobrenatural da vida cotidiana. O jovem levado que ironiza a macumba,  mas reconhece imediatamente que todos os mistérios humanos são dignos e existentes. O homem, enfim, que leva seu ofício de iconoclasta a sério. 

Mas não tão sério que não possamos reconhecer a graça de citações inusitadas como parece ser a da própria Sônia Silk, a “fera oxigenada”, que, além da cabeleira loira à Brigitte Bardot, ostenta um visual simplório que remete à Mônica de Mauricio de Sousa! Com seu vestidinho vermelho curto, que a cada passo revela sua calcinha branca, é um provável tributo de um admirador de quadrinhos (Sganzerla, claro) a um marco dos quadrinhos nacionais que, após aparecer em tiras nos jornais durante a década de sessenta, originou nesse 1970 uma revista autointitulada de grande sucesso. E se isso for apenas uma coincidência, bem, não faz a mínima diferença! 

Além de relembrar seus filmes anteriores, Sganzerla faz aqui uma inusitada associação com seu colega Julio Bressane, parceiro do diretor na empreitada Belair, como bem observou o amigo Adilson Marcelino: Lilian Lemmertz e Helena Ignez encontram neste filme e em Barão Olavo, o horrível um eco e uma similaridade realmente notáveis. Nos dois amam-se principalmente fisicamente, nos dois são “desregrada” e “imorais” (mais legítimo dizer que são amorais), nos dois tomam a tela com uma paixão intensa e bem encenada pela câmera e pelo espaço. 

Lilian Lemmertz, linda, é possivelmente a metáfora perfeita do que o filme representa: com sua aparência de Anna Karina (outra citação?), aparta-se por momentos insondáveis e logo se entrega ao riso, ao prazer, à sedução e embarca no lesbianismo de contato e carne, para logo depois tirar a peruca que usava, a roupa que a cobria e todo tipo de artificialismo mais evidente — e tomar banho, completamente nua, a água sendo uma vassoura varrendo seu corpo e retirando as impurezas incômodas. Mas ser assim isolada da sociedade não é também incômodo? A resposta é inútil. 

Copacabana mon amour pode ser incompreensível como as palavras cantadas por Gilberto Gil na trilha, mas é também musical e ritmado à sua maneira. E não erra o tom.

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