Barão Olavo, o Horrível

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz 

 

Barão Olavo, o horrível
Direção: Julio Bressane
Brasil, 1970. 

Por Filipe Chamy           

É virtualmente impossível encontrar um texto sobre esse filme sem que fique clara a tentativa de classificar de algum modo a sua “bizarrice”. 

Barão Olavo é mesmo um caso complicado de análise. Faz parte daquele cinema autoral imune a rótulos, que aqui no Brasil encontrou expoentes como Ozualdo Candeias e Rogério Sganzerla — por sinal, parceiro de Julio Bressane, o autor desta fita, na produtora Belair, de onde saiu este trabalho. 

É deliberada essa organização meio caótica dos elementos fílmicos. Evidentemente, o resultado (ou um dos resultados) é atrair o ódio dos “nossos amigos verossímeis”, como dizia Hitchcock, ou a desaprovação de todos aqueles que atrelam a importância dos filmes à “profundidade” da “história” nele contada. Qual é a história contada em Barão Olavo

Não é importante fazer uma sinopse ou resumo desta obra, até porque não é tarefa das mais fáceis dar um sentido a coisas pensadas para não o ter. Não quero com isso dizer que o filme é uma aleatória demonstração de inutilidade, ou uma afetada experiência de narcisismo, um de tantos clássicos exemplos de filme feito para o prazer exclusivo de seu realizador. 

Acontece que filmes também são experiências de sentidos — aí sim, sentidos físicos, mentais, táteis etc.—, e é preenchendo o campo das visões que eles mostram seu ofício. Barão Olavo é, portanto, um filme de cinema, e isso não é um pleonasmo. 

A figura-título é uma boa mostra do que se pode colher deste imbróglio: vivido pelo veterano Rodolfo Arena, lembrado em nossa edição do mês passado, é uma criatura que não se sabe bem a que veio,  mas que tem aparentemente desejos de perversões e só se sente pleno e satisfeito com o descompasso das coisas. Mas ele é horrível em que medida? Na medida de sua lenda, e isso atestam os berros do sujeito perdido na desolação urbana de uma cidade crescida desordenadamente, o que podemos conferir ao fim do programa. Ou seja: se o barão é horrível cabe discussão, mas seu aspecto mitológico é esse que o faz modelo de anúncios rebuscados, com aquela narração meio paródica de um pastiche de terror, aquelas frases vinculadas a suas aparições cotidianas; o “quem estiver de sapato não sobra” de Sganzerla vira em Bressane gritos de “cuidado com o barão”. É a palavra de ordem, da ordem do dia, e o barão é esse ser do dia e da noite. 

E as duas garotas? Helena Ignez e Lilian Lemmertz. O amor lésbico que a imagem revela após closes quase santificados de Lilian Lemertz, Helena Ignez sentada com ela em idílio erótico, passeando as mãos por suas coxas. Depois beijam-se, despem-se, amam-se, falam e desfalam, vivem apenas por existir no filme. A quebra da cronologia de sua relação também é flagrante, mas não é um recurso temporal e sim moral. Um pequeno tapa na mentalidade conservadora dos mesmos que olham ressabiados a estrutura estranhamente rebuscada da ação do filme. Sem aviso, estamos com Lilian Lemmertz urinando no banheiro, Helena Ignez requebrando seu corpo esguio sem a obrigação da dança, e também percebemos planos de relativa extensão dramática encenando a dramaturgia do silêncio, da imobilidade: nada acontece e nada se pronuncia. 

As outras personagens do filme, os outros conflitos, as outras representações, estão todas um pouco para servir a essa causa, desmistificar pelo menos parte dessas amarras de convencionalismo que forçam filmes (e arte em geral) a se manifestar sobre os problemas de sua época, as questões consideradas “relevantes”, ligadas à política internacional, às oscilações do mercado monetário, ao crescimento das violências e agressões. O barão Olavo, com seu anacronismo, é a contramão desses lugares-comuns. Cuidado com o barão!

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