As Cariocas – primeiro episódio

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz

As Cariocas (primeiro episódio)
Direção: Fernando de Barros
Brasil, 1966 

Por Daniel Salomão Roque 

Os episódios que compõe As Cariocas são antecedidos por uma pequena vinheta, onde Sergio Porto encarna seu alterego Stanislaw Ponte Preta e narra, com sua própria voz, a criação do mundo por Deus e a do Rio de Janeiro por Estácio de Sá.  As palavras do autor fazem o processo de surgimento da cidade parecer muito mais complexo e divertido que as pataquadas enfadonhas do Gênesis: por cima de imagens documentais, o grande cronista fala sobre praias, mulheres, machismo, futebol, concursos de Miss e carnaval. O terreno está preparado para a sátira de costumes, e qualquer coisa que fuja disso será um choque para as platéias. 

Então surge a primeira história, dirigida por Fernando de Barros, e dá ao espectador exatamente aquilo que ele se preparou para receber; todavia, o faz de maneira tão canhestra que acaba por infligir na gente o medo de que os demais segmentos se assemelhem no baixo nível – o episódio nada mais faz que subestimar, minuto a minuto, nossa inteligência. Trata-se de uma comédia de erros, pra lá de mal encenada, em que uma mulher adúltera (Norma Bengell) decide pôr suas mãos sobre o volante de um carro importado; para isso, envolve todos os homens que conhece num plano mirabolante que não dá muito certo – Lilian Lemmertz faz uma ponta, como a melhor amiga da personagem principal. Não há nenhum tipo de jogo mais elaborado com a linguagem cinematográfica: a imagem e o som não dialogam entre si, não tendo a música outra função que a de sublinhar, da maneira mais óbvia possível, as caras e bocas do elenco e os diálogos pretensamente engraçadinhos proferidos por personagens estereotipados que passam o episódio todo a correr de uma cama para outra.

Com um pouco de suor, nudez e transgressão, isso aqui daria uma ótima pornochanchada, mas a ausência dos três ingredientes bota tudo a perder. Haja saco.

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