Aleluia Gretchen

Dossiê de Aniversário: A Musa – Lilian Lemmertz

Aleluia, Gretchen
Direção: Sylvio Back
Brasil, 1976. 

Por Vlademir Lazo 

A filmografia de Sylvio Back é marcada por trabalhos com panos de fundo históricos. Não por acaso, o cineasta enveredaria para os documentários (que se tornaram predominantes em sua carreira), tendo realizado no seu segundo longa de ficção, A Guerra dos Pelados (1970), uma recriação de um episódio da Guerra do Contestado, ocorrido no interior de Santa Catarina no começo do século XX. Não admira que seu trabalho seguinte, Aleluia Gretchen, percorra décadas posteriores da história brasileira também em estados do sul (Santa Cataria e interior do Paraná, locais em que o diretor nasceu e cresceu), dessa vez em torno de adeptos do nazismo dentro do país. 

O assunto estava em voga no cinema mundial naquele momento, estando presente desde em filmes celebrados como Os Deuses Malditos, de Visconti, e Cabaret, de Bob Fosse (pode-se citar também Saló Ou Os 120 Dias de Sodoma, ainda que no contexto da República Fascista da Itália) até exploitations sanguinolentos também rodados na Europa, passando por exemplares infames do circuito de filme de arte como os dirigidos por Liliana Cavani. Aleluia Gretchen é mais bem-comportado que esses filmes todos, um drama familiar de produção ambiciosa para os padrões brasileiros, porém de pouca criatividade, em torno de uma família alemã fugida para o Brasil nos anos 1930. 

Para o público leal do cinema brasileiro, Aleluia Gretchen oferece o atrativo do grande elenco que compõe o núcleo dos Kranz no Brasil: Sergio Hingst, Miriam Pires, Kate Hensen, Lílian Lemmertz, etc. O diretor se inspirou em suas memórias de infância e origens culturais para tecer a ficção que permeia o longa: os Kranz desembarcam no Brasil pouco antes do estouro da Segunda Guerra e se instalam num hotel que adquirem e que se torna ponto de encontro onde circulará todo tipo de gente e simpatizantes da causa alemã (e nazista). 

Sabendo da delicadeza do tema (espinhoso), Back preza sobretudo pela objetividade. Exime-se de julgamentos e evita atitudes mais polêmicas ou sensacionalistas. O que nem sempre é suficiente para a feitura de um grande filme. Aleluia Gretchen sublinha quase o tempo todo o assunto que trata, não há desvios, fugas, ponto de vistas diferentes que façam com que o filme respire em outras direções e se apresente mais amplo. Back nunca demonstrou grande fôlego para a ficção, não espanta que quase todos os seus filmes sejam documentários históricos ou ficções em torno de figuras ou acontecimentos do passado. 

Em Aleluia Gretchen (seu trabalho mais bem-sucedido) o cineasta quase sempre permanece perigosamente a um passo do didatismo, utilizando os personagens como muleta para mostrar a “evolução das sobrevivências do nazifascismo tupiniquim dos anos 30 na cabeça e ações do brasileiro moderno” (como declarou poucos anos depois do lançamento). O filme começa com uma versão de Cavalgada das Valquírias (com arranjos e execução do grupo progressivo O Terço), adotada pelos nazistas como símbolo da força e poderio germânico, e inclui até o hino dos integralistas composto por Plínio Salgado. Depois pula décadas e passa pelos anos 1950 e 1970, mas a história é comprimida demais em seus cerca de 120 minutos de duração. Não que um tempo maior de projeção garantisse um estofo maior ao filme, porém em certo momento se percebe que Aleluia Gretchen pede por algum elemento mais épico que ficou apenas no meio do caminho. 

O que ficam são cenas bastante fortes, que se aproveitam do poder imagético de ícones como o da bandeira com a suástica estendida na parede durante a ceia de Natal, ou os processos ritualísticos no treinamento do garoto na juventude hitlerista. Em determinado momento comentam em fazendas de “criação de gente” na Alemanha e do sonho ariano de surgimento de um novo homem (subentendendo-se a necessidade de destruição de velhas espécies inferiores). O elemento estranho e necessário para o desencadeamento de conflitos no universo do filme de Back é o viajante interpretado por Carlos Vereza, que sofrerá na carne as conseqüências de não se adaptar a esse ambiente.

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