Sexo às Avessas

Dossiê Ênio Gonçalves

Sexo às Avessas
Direção: Fauzi Mansur
Brasil, 1982

Por Leo Pyrata

Nâo vi e não gostei dos Se eu fosse Você do Daniel Filho. Talvez, pois “vai contra os meus princípios, apesar de não tê-los” (valeu Guará) e os limites do meu amor pelo cinema brasileiro ficam bem antes das cercas eletrificadas do Projac. Sexo às Avessas, filme de 82 de Fauzi Mansur, opera na farsa partindo de uma premissa próxima às fitas do ator de Espelho de Carne, produzindo resultados muito mais interessantes. O filme já começa com um universo concretizando onde a inversão de papéis entre Homens e Mulheres já é fato consumado. Nele, os homens têm seu lado feminino aflorado de modo hiperbolicamente tosco e as mulheres são masculinizadas de forma caricata de acordo com a visão paternalista e retrógrada cara à época de chumbo e que ainda hoje assombra o mundinho em que vivemos – a ideia da marcha do orgulho heterossexual não me deixa mentir.

O filme começa de forma marcante com grunhidos de uma dupla de papagaios e mais adiante saberemos que, junto com tucanos e araras, faz parte do coro que comenta o filme. Logo depois temos Heleno vivido pelo sensacional Serafim Gonzales travestido de dona de casa cuidando do jardim de uma casa grande e cantarolando “você não sabe o que é consciência”, e nessa citação da canção Ai que saudades da Amélia de Mário Lago e Ataulpho Alves, as definições de universo masculino e feminino do diretor já estão mais que claras.

A definição de um gênero às avessas está caracterizada justamente na negação daquilo que o define. É como um mergulho na cabeça de uma criança que coloca a definição de ser menino como não fazer tudo aquilo que as meninas fazem. Era a lógica da época e parecer que muita coisa não mudou. Ser sensível é sinônimo de ser afeminado e ser homem é ser truculento e canalha. Até determinado momento essa simetria as avessas é respeitada e mesmo com os gêneros travestidos a orientação sexual é mantida. Depois tudo desanda e a figura masculina afeminada e submissa parece se interessar pelo semelhante. E também pelo fato de o figurino dos personagens do gênero masculino ser composto por roupas espalhafatosas que acabam por distorcer a própria proposta do filme.

Os homens que ocupam o espaço das mulheres usam roupas que reforçam a ideia de que na visão de mundo de Sexo às Avessas a única maneira de um homem ter feminilidade é desmunhecar e se vestir de forma espalhafatosa. Porém, é sintomático que nenhum deles (ou a maioria, caso eu esteja esquecendo algum momento isolado) apareça de vestido. O que não deixa de produzir um subtexto em que o papel de homem enquanto provedor (ainda que representado por mulheres de terno e gravata) é incorruptível e perdoável em seus deslizes, pois é o chefe de família. E o lugar da mulher representada pelo homem com vestuário de uma caricatura grotesca de homossexual é a cozinha. Impossível não pensar o que figuras como o Jean Garrett poderiam ter subvertido num filme que partisse de uma premissa como essa.

Um leitor desavisado pode, nessa altura do texto, achar que eu não gosto do filme e que o estou espinafrando. O que, alias, não é verdade. Acho impossível um filme comentado por papagaios, araras e tucanos (dos bons) ser ruim. Principalmente um filme do Fauzi Mansur, que antes de tudo é sincero na sua forma de ver e representar o mundo. O filme é cínico e me agrada muito a maneira contraventora com que as atrizes captam o gestual de “macho”. O trio de atores do sexo masculino formado por Ênio Gonçalves, Arlindo Barreto e pelo já citado Serafim Gonzalez consegue matizar os estereótipos do que seria uma representação feminina dentro desse universo farsesco. O filme é fiel ao raciocínio da época e assisti-lo hoje no mínimo serve para tentar entenderes melhor como fósseis e fossas da TFP ainda existem.

Leo Pyrata é estudante de cinema, ator do curta Contagem – Prêmio de Melhor Direção para Gabriel Martins e Maurílio Martins no Festival de Brasília -, diretor do curta Retrato em Vão, co-diretor do longa Estado de Sítio, e vocalista da banda Grupo Porco de Grindcore Interpretativo.

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