Onda Nova

Dossiê Ênio Gonçalves

Onda Nova
Direção: Ìcaro Martins e José Antonio Garcia
Brasil, 1983.

Por Leonardo Amaral

 

Em 1983, o Brasil vinha de uma eliminação traumática para a Itália na Copa do Mundo do ano anterior. Um time tido por muitos como um dos melhores que o país já teve, mas que acabou sucumbindo e não sendo campeão. Essa equipe é reflexo de uma época fértil em ótimos jogadores (Zico, Sócrates, Toninho Cerezo, Reinaldo, Eder, Júnior, Falcão) do futebol brasileiro. Um período que também ficou marcado por um movimento realizado por alguns jogadores no Corínthians que ficou conhecido como Democracia Corintiana. Sócrates, Casagrande, Wladimir eram os líderes dessa política que decidia se os jogadores se concentrariam para as partidas ou não, se deveriam fazer isso ou aquilo. Não é à toa que Casagrande (mesmo brigando com a produção do filme e abandonando as filmagens) e Wladimir fazem parte do elenco de Onda Nova. A década de 1980 tem esse traço de liberdade, tanto no cinema como no futebol, e isso reflete diretamente nas opções estéticas e temáticas feitas pelos diretores Zé Antônio Garcia e Ícaro Martins.

Já no começo do filme, os créditos com as funções e elenco são apresentados ao ar livre, pichados em panos pelas atrizes. Em seguida, uma partida de futebol: homens vestidos com roupas femininas (dentre os quais, Casagrande e Wladimir) contra mulheres, com um desafio entre a goleira Lili (Cristina Mutarelli), do Gaivotas Futebol Clube e Casagrande, do time adversário. Se ele marcasse um gol, ela teria que cortar o cabelo estilo Waldir Peres, goleiro do São Paulo e da seleção brasileira na época. São muitas as referências a ícones do cinema e do futebol daquele momento: em certo momento, a mãe de uma das jogadoras (Cyda Moreira), taxista, fala que conhecia intimamente Vicente Mateus, folclórico presente do Corínthians; há também instantes em que a personagem Rita (Carla Camurati) sonha em trabalhar em um filme de Walter Hugo Khouri e insiste em encontrá-lo na cidade; sem contar no próprio Chacrinha, que é citado quando as meninas supostamente vão ao seu programa para falarem de futebol.

Se hoje pensarmos as dificuldades encontradas pelo futebol feminino e o cinema nacional, na década de 1980 as coisas ainda eram mais complicadas. Não é por menos que a goleira Lili precisa fugir de casa, pois os pais, conservadores, não vêem com bons olhos o fato da garota ser jogadora de futebol e muito menos viver um caso amoroso com um casal homossexual. Preconceitos e conservadorismos oitocentistas que acabam desconstruídos por Ícaro Martins e Zé Antônio Garcia em um instante histórico no Brasil, com a proximidade do encerramento do regime ditatorial no país. Onda Nova não teme o erro (por isso mesmo não vai se furtar de mostrar uma cena em que Carla Camurati sai de uma mesa de bar para ir a outro lugar, e, ao correr, cai no chão enquanto todos os outros começam a rir), o erotismo (são várias as cenas de sexo, nudez de belos corpos) e o caráter libertário (as meninas rompem com tradições, jogam futebol, saem de casa, se libertam sexualmente).

Essa liberdade se reflete, inclusive, na mise-en-scène, oferecendo ao espectador algumas cenas bastante memoráveis. Como, por exemplo, a de Tânia Alves, que é casada com um ex-jogador Ado (Ênio Gonçalves) e é mãe de Batata, craque do time das Gaivotas. Em um bar, Tânia Alves canta ‘Vale Tudo’, de Tim Maia, enquanto as meninas trocam flertes no local. Um filme libertário que mostra seus extremos nas relações de duas famílias bem diferentes. Em contraponto à família conservadora de Lili, a relação liberal dos personagens de Tânia Alves e Ênio Gonçalves, em seus momentos de intimidade e também com a família. Em um desses instantes, uma bela cena, que reflete a proximidade de pai e filha, quando Gonçalves joga futebol de botão com a filha enquanto comentam de coisas da vida. Onda Nova é também essa forma de falar daquele tempo a partir desses vários fragmentos.

Em outro momento recordável, Vera Zimmermann beija uma outra garota dentro do taxi. A intimidade das duas é filmada por uma meia luz e essa fotografia de Antônio Meliande ressalta os contornos dos corpos. A sensualidade do filme está muito ligada a esse trabalho de iluminação e câmera.

Em uma das melhores cenas de Onda Nova, Caetano Veloso entra em um taxi para se atracar com uma fã. Eles se pegam no banco de trás e percorrem uma parte de São Paulo: Liberdade, Trianon, Minhocão. A cada parada, pedem para que a corrida continue, a cada mudança, uma alteração na trilha, finalizada com Dirty Love, de Frank Zappa. Ao final, sem dinheiro para pagar o deslocamento, Caetano solta uma pérola: “é que não estou acostumado a andar com dinheiro, pois todo mundo paga as coisas para mim”. Essa é apenas uma das várias partes nada protocolares do roteiro de Onda Nova, como no caso de uma das mais novas meninas do Gaivotas, que vai até o centro de treinamento corintiano para pedir que Casagrande seja o responsável por tirar sua virgindade. O filme segue sempre nessa quebra dos padrões, com diversas colagens de situações que evidenciam uma juventude de São Paulo ansiosa por novas experiências. E o longa segue essas experimentações, inclusive em sua trilha sonora, com canções de Tim Maia, Michael Jackson, David Bowie, e outro ícones pops da década.

Experimentar sem medo talvez seja a expressão maior de Onda Nova. O futebol torna-se, então, uma espécie de metáfora de libertação. Em uma das imagens mais poéticas do filme, Marcelo, após a morte acidental de seu amante Ruy (após transarem, eles brincam de roleta russa e, por infelicidade, a arma estava carregada com uma bala), tenta avisar Lili sobre o que havia acontecido. Mas ela estava numa partida das Gaivotas contra a seleção feminina italiana (sugestão de vingança contra a Itália, dita inclusive por Osmar Santos, que narra a partida). Chocado pela morte do namorado, Marcelo caminha, solitário e desolado, pelas avenidas de São Paulo até encontrar um campinho batido de terra, onde joga, seminu, uma partida de futebol com desconhecidos. Os sons da cidade se fundem à narração de Osmar Santos do jogo que se passa. Futebol e vida se misturam, ambos são partes de uma mesma narrativa e sinônimos de uma mesma coisa: liberdade.

Leonardo Amaral é crítico pela revista Filmes Polvo e co-editor da Revista Lateral.

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