Juventude e Ternura

Dossiê Ênio Gonçalves

Juventude e Ternura
Direção: Aurélio Teixeira
Brasil, 1968. 

Por Daniel Salomão Roque 

Juventude e Ternura é um dos tantos filmes produzidos nos anos 60 com o objetivo de aproveitar a explosão mundial da música jovem. O que diferencia essas fitas dos musicais tradicionais é o emprego que elas fazem das canções: estas deixam de ser parte integrante da narrativa para se tornarem meros apêndices. A idéia agora não é mais o emprego de atores-dançarinos que executem coreografias vistosas onde vozes e movimentos corporais se sincronizem e complementem a narrativa, mas sim a exibição pura e simples de um artista em voga, ou que se queira promover – quase sempre, tais artistas protagonizam aventuras banais interpretando a si mesmos, ou algum personagem de características parecidas. Entre um papo furado e outro, uma música, executada pelos próprios (e obviamente presente na trilha sonora). É impressionante, nesse tipo de filme, a proliferação de cenas em festas, clubes e casas noturnas – pelo visto, o alto cachê das estrelas implicava, via de regra, uma redução de custos com roteiristas.                              

Claro, existem exceções. Poderíamos citar uns poucos filmes estrelados por Elvis Presley – talvez o precursor do gênero, ele mesmo protagonista de muitas bombas – ou a parceria entre Richard Lester e os Beatles, que rendeu A Hard Day’s Night e Help!, as duas mais representativas fitas do tipo, mas não precisamos sair de nosso próprio território: Em Ritmo de Aventura, por exemplo, constituía uma experiência radical que trazia Roberto Carlos no melhor momento de sua carreira, utilizando suas canções para contestar os limites entre ficção e realidade. 

Juventude e Ternura, no entanto, faz parte do grupo majoritário. Não há nele um único traço de inventividade, e a competência, quando aparece, é na forma de breves lampejos. Estamos diante da mais problemática categoria de filmes – aqueles que, não sendo bons, também não chegam à ruindade. É o caso dessa inexpressiva fita-propaganda que traz Wanderléia no papel de uma jovem cantora oscilante entre o amor de dois homens – seu empresário (Anselmo Duarte), espécie de mafioso por quem nutre um complexo de Electra, e um simpático compositor interpretado por Ênio Gonçalves.     

A presença de dois dos maiores astros do cinema nacional, uma trilha sonora pop deliciosamente datada e a figura sempre bela de Wanderléia não bastam para que Juventude e Ternura se fixe na memória do espectador. Falar dele é uma experiência estranha: sendo, do princípio ao fim, um amontoado de clichês costurado com apresentações da cantora e estando tão desprovido de peculiaridades, sua narrativa parece inexistir no plano individual – Juventude e Ternura é apenas um entre tantos filmes idênticos, que narram a ascensão gloriosa de um artista humilde e suas desilusões posteriores, bem como seus dilemas amorosos – aqui, há até mesmo a famigerada salva de palmas para o casal que se beija depois de vencerem juntos todas as dificuldades da vida.  Para os adeptos da teledramaturgia global, talvez seja um prato cheio. 

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