Entrevista Mário Vaz Filho

Especial Rodolfo Arena

 

“O Rodolfo Arena era um cara muito divertido”
Por Matheus Trunk

Mário Vaz Filho foi um dos mais ativos assistentes de direção da Boca paulistana. Ele ainda pode ser encontrado nos bares do centro com um cigarro na mão esquerda, um copo de cerveja na direita e com os volumosos cabelos brancos ao vento. Ficou famoso pela direção de diversos filmes explícitos como o clássico Um Pistoleiro Chamado Papaco, com o anão Chumbinho.

Mas antes disso, Marinho trabalhou como assistente. Esteve sob as ordens de grandes realizadores como Antônio Meliande, Cláudio Cunha, David Cardoso, Ody Fraga e sobretudo Jean Garrett (“meu mestre. O melhor diretor com que trabalhei”).

Em 1979, os dois trabalharam juntos em A Mulher Que Inventou o Amor. O técnico guarda boas recordações do ator Rodolfo Arena, que interpretou um dos personagens principais do longa. “Ele era um cara muito divertido, vivia contando piada. Sempre foi um velho brincalhão”.

Marinho não gosta de dar entrevistas. Acredita que pesquisadores e documentaristas deturpam o que diz. “Porra, depois tu coloca naquele Zingu e recebe uma baita grana né? Você cafetina a gente”. Exagero dele. Com calma e muita conversa, ele decide dar seu depoimento. Iniciamos o bate-papo num bar da galeria Boulevard, no centro de São Paulo, ponto de encontro do pessoal do cinema.

Depois, prosseguimos no início da madrugada num boteco na rua dos Timbiras, atrás da Praça da República.

 

Z- Como o Jean Garrett chegou no Rodolfo Arena pro filme?

Mário Vaz Filho- Não sei. Eu conheci o Rodolfo quando fui pegá-lo no hotel antes do início do filme. Também não me lembro qual hotel ele ficou aqui em São Paulo. Só sei que parecia meio sisudo no começo e ele estava com um garoto no quarto. Ele me falou na mesma hora: “Esse garoto é meu filho viu. Não vai pensar que eu sou veado”. Ele era um velho brincalhão. Essa brincadeira quebrou o gelo e todo mundo se deu bem com ele. 

Z- Como foi trabalhar com ele?

MVF- Foi legal pra caralho. Ele era muito gozador, adorava um papo furado. O Arena adorou trabalhar com o Jean. Ele ficava falando: “Mas esse seu nome é francês. Não pode ser português”. No último dia, ele falou: “Se você é português, o teu nome tem que ser Jankito”. Porra, todo mundo, inclusive a equipe técnica caiu na maior gargalhada. 

Z- A Mulher Que Inventou o Amor era um filme pretensioso?

MVF- Muito. Era uma grande produção. O Cassiano (Esteves, produtor) vinha de uns filmes regulares e queria algo maior. Inclusive, muita coisa eu acredito que seja parecido como o Bruna Surfistinha. Tem uma parte em que a personagem principal transa com um monte de caras em um plano único. A gente tinha feito isso muitos anos antes também em um plano único. Não estou falando que eles copiaram a gente, mas parece muito. 

Z- O Rodolfo Arena não foi dublado por ele. Você se lembra porque isso aconteceu?

MVF- Não me lembro. Sei que tem uma parte do filme que ele fala um troço em francês. Quem deu esse script pra ele foi o Carlão (Reichenbach, diretor de fotografia e ator no filme). Não sei quem dublou ele porque eu não participei dessa parte. Já estava em outro filme. 

Z- Quanto tempo durou as filmagens?

MVF- Dez semanas. Atrasou um pouco porque o Cassiano teve que viajar. Nisso, eu trabalhei na parte de assistente de produção de um filme do Adalto (O Império das Taras). A Mulher Que Inventou o Amor era uma superprodução. Os filmes normalmente eram feitos em três, quatro semanas no máximo. 

Z- Mas o relacionamento do Rodolfo com o Jean foi ótimo?

MVF- Olha, eu só escutei elogio das duas partes. O Rodolfo era um cara muito divertido, vivia brincando, contando piada. O cara que está fazendo um trabalho profissional nunca dá problema. Isso só acontece com quem é inseguro ou anti-profissional. Coloca aí: isso só acontece com quem está na arte por acidente. Falei bonito né? 

Z- Você deve ter acompanhado o relacionamento do Jean com o José Silvério Trevisan, que foi co-roteirista do longa.

MVF- Poxa, o Trevisan é um grande cara. O roteiro dele era maravilhoso, os dois eram grandes talentos. A minha opinião pessoal é que faltou uma química entre roteiro e direção. Infelizmente, o filme não funcionou no resultado final. Acabou dando um prejuízo pro produtor. 

Z- Você acha que A Mulher Que Inventou o Amor poderia ter uma repercussão maior se fosse feita hoje?

MVF- Sim. Foi um filme sofisticado pros espectadores da época. O cinema hoje tem um público mais alternativo que poderia gostar de uma produção como essa. Não era um filme que falava diretamente com o público que ia ver pornochanchada.

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