As Meninas, de Emiliano Ribeiro

Por Filipe Chamy

 

As meninas
Direção: Emiliano Ribeiro
Brasil, 1995.

 

François Truffaut tinha o seguinte princípio: em adaptações literárias para o cinema, deve-se evitar filmar versões de livros célebres, para não aproveitar oportunistamente a fama do livro; o ideal seria adaptar obras pouco conhecidas, e justamente procurar com o filme trazer um pouco de notoriedade ao texto e a seu autor original. 

As meninas é, todos sabem, um livro célebre. Discutivelmente o romance mais famoso de Lygia Fagundes Telles, e uma obra que não precisa de qualquer holofote a mais em sua consagrada reputação. 

Então Emiliano Ribeiro foi oportunista? Não exatamente. Aliás, é difícil afirmar isso. Porque As meninas é um romance intransponível a outra linguagem que não a da literatura. Ao diretor resta um papel inglório desde a concepção do projeto: conformar-se com uma sombra sempre pairando sobre seu trabalho, ou seja: quem vê o filme, quer o livro, e virtualmente todo o debate versará sobre essa problemática. 

Já discuti anteriormente a questão da adaptação literária no cinema, e de tudo isso é preciso compreender que certos fenômenos condicionam determinadas produções; o filme baseado em um romance tão discutido como As meninas já é pensado inconscientemente como um “complemento”, espécie de homenagem, curiosidade. Não se trata aqui de embarcar em considerações superficiais como: “é evidente que perder-se-á muito em um filme de cem minutos que quer abarcar um romance de quase trezentas páginas”. Porém é mister compreender entender que As meninas só funciona como ilustração para quem leu o livro. Obviamente, é um vício gravíssimo do filme de Emiliano Ribeiro. Porque toda a força de Lorena, Lia e Ana Clara só a escritora conseguiu descrever, o cineasta falha a toda tentativa de desenvolvê-la. E aí apela para uma adaptação sem sutileza: a personagens ausentes (só mencionados) na narrativa, ele dá corpo e forma, voz, aparência; vozes interiores e monólogos metalinguísticos, ele os transforma em diálogos; aos momentos sem explicação (porque nem tudo precisa de explicação) ele cria todo um aparato artificial para tornar claro tudo que houve. Ele enfeita demais as coisas e no final fica aquela desagradável impressão da caixa de presente mais rebuscada que o próprio presente. 

Não discuto aqui a estupidíssima separação entre “forma” e “conteúdo”, e muito menos “fidelidade” ao romance. Mas As meninas (o filme) se vangloria de ser um apêndice, desimportante. Toda a relevância se esvai em conflitos amenizados por concessões desnecessárias, exposições fúteis, uma falta de liberdade que não é bem vista na literatura mas que no cinema é tratada com negligente condescendência. 

Olhando en passant, As meninas cinematográfico não tem defeitos tão absurdos de estrutura; é um filme normal, banal. E nisso está o problema. Não há muita intensidade nas situações pintadas com rapidez questionável, não se aprofunda praticamente nada e fica-se por isso mesmo. Mas era preciso perceber que uma narrativa tripartida — e eu me refiro ao filme — demanda mais cuidado porque é fácil se perder com mais de um foco. E então o diretor mexe com recursos como constantes flashbacks e julga estar ligando assim pontos de fragmentação, mas em verdade só torna moroso o encaminhamento da trama, planificando todos os tortos e tornando assépticas as violências das personagens, desconsiderando suas contradições. No desejo de escapar ao literário e ao conceitual, aposta-se na afetação teatral e no esquemático. 

Emiliano Ribeiro morreu há pouco, mas as três jovens do pensionato de freiras (as meninas) já são eternas. Este filme e seu realizador não podem se gabar de ter contribuído para isso, mas, de qualquer modo, valeu a tentativa.

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