Entrevista Especial: Hernani Heffner – Segunda Parte – Parte 4

Entrevista com hernani Heffner – Segunda Parte
Parte 4 – Mam, Cinédia, pesquisa

Por Luiz Alberto Benevides

Z: Você não teve uma série de cadeiras básicas, né? 

Hernani: É, eu fui aprender por conta própria, tanto uma coisa quanto outra, porque você não tinha cursos dedicados a isso, ou porque você tinha deficiências grandes na universidade naquele momento sobretudo porque era um período de formação, de crise econômica. 

Z: E em 83 foi o ano do concurso? 

Hernani: Foi o ano do concurso, o resultado saiu em novembro de 83 e a gente começou a trabalhar em 84. Na Cinearte a gente ficou um ano e meio, e no Edgar a gente ficou até 88. 

Z: Então você começou a ter uma oportunidade com a Cinédia antes de terminar esses trabalhos? 

Hernani: Bem antes, no meio do caminho, na verdade, 86. E no Mam desde 84 eu já era voluntário, além da indexação da Cinearte eu fazia outras coisas, participava de outras coisas. Já a partir de 86, ora eu ajudava na documentação, ora ajudando nos arquivos do Chico. Durante quase dez anos eu e Chico fomos apanhar coisas nos mais variados locais e buracos, lugares estranhos etc., sempre tinha alguém com um bando de filmes, e ele era sozinho… O Chico –Francisco Moreira – era o responsável pelo arquivo de filmes da Cinemateca. E eu ia muito com ele e a gente conversava sobre um assunto que ninguém gostava, que era tecnologia de cinema antigo. Então ele conhecia muito e eu gostava daquilo e ficava chateando ele: “Conta aí, e a tal câmera? E gravador, e tal isso, e tal aquilo”. E ele conhecia bastante, aí a gente se aproximou e de vez em quando ele tinha essas tarefas de arrumar a lataria, ou ir buscar um lote de filmes em tal lugar, eu ia junto, achava aquilo divertidíssmo, e aí enfim, fui me aproximando cada vez mais desse universo do arquivo de filmes propriamente dito. A gente fez dezenas de viagens por todo o estado pra ir buscar coisas. 

Z: Sempre no Rio? 

Hernani: Sempre no Rio. Fora do Rio não dava (risos), a verba era complicada. Mas no Rio a gente se aventurava, ia buscar coisas, às vezes entupia um caminhão, às vezes era só um carrinho, mas a gente estava sempre indo atrás das coisas. 

Z: Não só filmes? 

Hernani: Não, às vezes documentação, enfim, quando a gente foi à RFF, distribuidora do Roberto Farias, tinha muita documentação num galpão ali na Pereira da Silva [rua do bairro carioca de Laranjeiras], e a gente entrava naqueles galpões absolutamente infectos e tirava as coisas de lá. 

Z: Era perto do [morro] Pereirão ou mais pra cá? 

Hernani: Mais pra cá, bem mais pra cá. Era na verdade na primeira curva da rua, a sede da RFF ficava um pouco mais acima. Mas pegávamos equipamentos, um monte de coisas, e íamos aumentando significativamente o acervo da Cinemateca. Então eu passei de 86 até 2000 me dividindo entre a Cinédia e a Cinemateca e basicamente entre pesquisa e voluntariado na área de filmes. Em 2000 é que isso mudou, porque fui convidado a dar aula na Uff. A universidade estava novamente em crise, uma carência de professores muito grande, vários professores regulares tinham ido fazer doutorado e pós-doutorado… alguns tinham falecido, Antonio Carlos, que foi meu professor, tinha falecido recentemente… tinha menos da metade do corpo docente naquela altura e a Universidade arrumou um concurso de professor substituto naquela altura, alguns professores lembraram de mim e me contataram. Num primeiro momento eu não quis, porque eu nunca quis dar aula. Achava que esse negócio de dar aula era muito delicado, uma coisa específica que requeria um talento particular que eu achava que não tinha, e também porque eu achava que a Uff era muito bagunçada. 

Z: Você gostava do quê? De pesquisar? 

Hernani: É… minha vida sempre foi mais a pesquisa do que qualquer outra coisa. Naquela altura eu já não fazia mais pesquisa… curiosamente, em fevereiro de 1996 aconteceu a tragédia com a Cinédia que foi a enchente em Jacarepaguá. Então eu deixei de fazer pesquisas pra ir cuidar dos filmes. A Cinédia tinha um estúdio, né? Um estúdio que o Adhemar Gonzaga tinha construído lá a partir de 56, e era um conjunto de estúdios e palcos, tinha 4 palcos na época. A empresa alugava principalmente pra Rede Globo, tinha lá Malhação, telenovela, de vez em quando faziam um filme, e todo o acervo de filmes documentais da companhia estava lá. Isso significava que você tinha um tesouro ali. E de um dia pro outro, devido à chuvarada na cidade, e ao fato de que lá em Jacarepaguá você tinha uma represa um pouco além da Cinédia… por uma imperícia do responsável, ele abriu as comportas, pois ele ficou com medo da represa estourar, então ele abriu as comportas. E aquilo se tornou em uma tragédia monumental em Jacarepaguá com dezenas de mortos, mais de 70 pessoas, e a força das águas atingiu tudo que tinha pela frente, inclusive a Cinédia. Os filmes ficaram embaixo d’água, debaixo da lama. Então, como toda a história da companhia estava ali, se deixasse se perder, tinha acabado. Então eu parei com as pesquisas todas e fui trabalhar com isso, e a gente decidiu restaurar esse acervo que havia se perdido. 

Z: E você já tinha algum know-how de conservação no Mam? 

Hernani: Nenhum. 

Z: Então você era um pesquisador, você não conhecia nada de conservação? 

Hernani: Não, não tinha o menor interesse real por isso. Só trabalhava com a pesquisa histórica. Tinha noções muito vagas pois convivia com o Francisco Moreira… 

Z: E o Francisco Moreira? Me fala da formação dele. 

Hernani: Ele tinha feito Cinema na Uff e depois tinha se especializado em preservação de filmes. Estudou na Alemanha Oriental, na Staatliches Filmarchiv [Arquivo de Filmes do Estado] e depois nos Estados Unidos, no UCLA Film Archive, passou um ano em cada um desses lugares, nos anos 80. Como ele conhecia muito eu não me via ligado a isso, só o acompanhava pelos filmes que nós recolhíamos: quando você recolhe o filme, recolhe a possibilidade de ver o filme, estudá-lo, conhecer dados técnicos; mas não de conservá-los, isso era uma tarefa só dele. Aí naquele momento, tendo que cuidar do acervo de filmes da Cinédia, a D. Alice não confiava em ninguém… e aí eu não tive muita opção: eu tive que assumir essa tarefa, a gente começou logo no ano seguinte em 97, começamos pelo Ébrio e vínhamos fazendo isso até agora em 2010. Todo o material da companhia foi duplicado ou restaurado ao longo destes 13 anos. Em 99, passou uma diretoria bastante atribulada que acabou despedindo o Francisco. E eu acabei assumindo o lugar dele por falta absoluta de opção, pois não tinha mais ninguém. Foram despedidas tantas pessoas do setor que, quando despediram o Francisco, acabaram jogando no meu colo essa batata quente que era cuidar do arquivo de filmes. E logo em seguida veio o convite para dar aula na Uff, e esse convite também era em um caráter desesperador, a escola estava com poucos professores, com dificuldades de oferecer as disciplinas para os alunos. Eu em um primeiro momento recusei, depois foi feito um pequeno lobby, Serra, Tonico, Cordeiro, que eram professores de lá, ficaram me cantando pra pelo menos ir fazer a prova… era uma coisa muito engraçada… eu nem me inscrevi para fazer a prova; eles me inscreveram (risos). 

Z: Era prova pra qual cargo? 

Hernani: Professor substituto. Aí eu acabei indo fazer a prova, me provocaram. Aí fui fazer a prova, prova prática, dei uma aula lá… no final eles vieram conversar comigo dizendo que era importante que eu trabalhasse, que a escola precisava desse apoio naquele momento, que achava que eu tinha capacidade pra isso etc. E eu acabei topando, na verdade era uma vaga, mas entraram dois professores, que éramos eu e o Lécio, nós dois fomos dar aula no curso de cinema da Uff e aí eu impus uma condição, quer dizer, a matéria que deram era história do cinema brasileiro… aí eu impus uma condição que era dar aula do meu jeito, nos meus termos e onde eu quisesse. Eu tentei dar aula em Niterói, mas não tinha condição nenhuma porque a minha premissa era dar aula com película, aula do jeito que os filmes são, ou seja, pra serem projetados em sala grande, com som adequado e isso não tinha condição na Uff porque o cinema da universidade [Arte-Uff], em geral, estava cedido na parte da manhã – que era quando eu dava aula – pra ensaio de orquestra, pra uma série de outras atividades que, enfim, tinham mais importância do que a aula. E aí eu acabei trazendo a aula para a Cinemateca, no Rio, e eu dava a aula pela manhã ali no Mam. Aí dei aula durante um ano de história do cinema brasileiro. Nesse meio tempo, a crise particular da Cinemateca se aprofundou. 

Z: Qual foi esse período? 

Hernani: Entre 2000 e 2002. Essa crise se aprofundou, aí por sugestão do professor João Luiz Vieira, se criou uma disciplina de preservação de filmes na Uff. De um lado, com intenção de formação mesmo de mão-de-obra, já que inclusive eu estava sozinho na Cinemateca. De outro lado, como uma tentativa difusa de eventualmente criar um fato novo e impedir o desmonte da Cinemateca do Mam, que acabou acontecendo. E aí, eu passei a dar aula de história do cinema brasileiro e de preservação. 

Z: Isso em 2000? 

Hernani: Preservação a partir de 2001. Quando acabou o período lá como professor substituto, eu não quis continuar dando a cadeira de cinema brasileiro, porque tinha um professor regular que era o Roberto Moura. Mas a cadeira de preservação, eu me ofereci para continuar dando porque eu achava que aquilo ali era importante, porque não tinha nada regular no Brasil, porque achava que, enfim, ao longo de 50 anos se tinham formado 4 ou 5 pessoas no máximo e essas pessoas não tinham conseguido transmitir esse conhecimento e essa informação de uma forma mais ampla. E eu resolvi continuar na Uff como professor voluntário e fiquei como professor voluntário de 2001 a 2007. Em 2007, eu achei que a missão de ensinar preservação já estava concluída. É um tipo de matéria em que você tem que dar a mesma coisa todo ano. É técnica. Eu não gosto de ficar repetindo a mesma coisa, chega uma hora que satura. Aí em 2007, eu deixei de dar a disciplina. Aí entrou um outro professor, o Rafael De Luna e, em 2009, houve um concurso, a e a disciplina se tornou obrigatória no currículo da Uff. Hoje em dia ela tem um professor regular, que é o Fabián Nuñez. Ela se institucionalizou. 

Z: Voltando pra 96, você teve a enchente em fevereiro de 96, e qual foi a época que você foi contratado para trabalhar no Mam? Antes você era voluntário… 

Hernani: Janeiro de 96. 

Z: E você tinha sido contratado como..? 

Hernani: Eu era curador de documentação. Se criou um vazio na documentação da Cinemateca, que estava sem chefe já havia algum tempo… 

Z: Anos? 

Hernani: Não lembro. A chefe era a Silvia Oroz, ela deixou de ir a certa altura, eu não sei exatamente quando. Mas enfim, a Susana Schild, que era diretora da Cinemateca naquele momento, já vinha conversando comigo a rigor, desde 94, queria que eu entrasse na Cinemateca e eu estava sempre recusando, eu queria ficar só na Cinédia e só nas pesquisas, eu fazia voluntariado etc. e tal, ajudava mas não queria um compromisso formal. 

Z: O seu primeiro emprego foi mesmo a Cinédia? 

Hernani: Cinédia. 

Z: Carteira assinada? 

Hernani: Isso, a gente brincava, eu e Lécio, que éramos os únicos pesquisadores cinematográficos de carteira assinada do mundo (risos). 

Z: Tirando o leste europeu (risos). 

Hernani: Não existia, né? Pesquisador de carteira assinada era um negócio meio esquisito. Mas a gente era. Aí em novembro de 95, a Suzana me pressionou na parede dizendo “Vem, vamos fazer uma experiência e tal, você vem e começa”, aí eu fui adiando e adiando, mas em janeiro eu fui e comecei a ir todo dia, e na época você trabalhava meio período só mas eu chegava as nove da manhã e saia às dez da noite, e ela viu que eu ficava lá praticamente o tempo todo, que tinha muito problema… 

Z: E a Cinédia enquanto isso? 

Hernani: Cinédia, eu ia de tempos em tempos, porque quando eu entrei na Cinédia em 86, estabeleci uma regra pra D. Alice: eu venho quando necessário. Apesar de ser um funcionário de carteira assinada eu não batia ponto, e pesquisa você faz muito mais fora do ambiente de trabalho do que no ambiente de trabalho, e escrever você escreve em casa. Eu ia quando ela precisava de mim. Quando não precisava, e naquela altura eu já tinha dez anos de Cinédia e já sabia exatamente o que precisava e o que não precisava, se eu tinha que fazer isso ou aquilo. Era o ano em que ela estava lançando o Palácios e Poeiras, livro pro qual eu tinha feito a pesquisa toda alguns anos antes, de 92 até mais ou menos 95… e quando você sai de uma pesquisa tão longa, tão exaustiva, você na realidade quer fazer outra coisa completamente diferente, quer dar um tempo daquele assunto… foi o momento que coincidiu de eu ir parar na Cinemateca, até um pouco pra refrescar um pouco a cabeça… tinha muitos problemas, aí mergulhei mesmo nos trabalhos lá. E a Susana disse “Não, se você tá trabalhando tem que receber de forma regular”… ela me contratou meio que na marra. Logo depois eu vinha pra Cinédia, eu me dividia entre as duas coisas e na Cinemateca fiquei três anos como curador de documentação, de 96 a 99; em setembro de 99 o Francisco foi despedido e eu virei o responsável pelo arquivo de filmes. Assumi a função de conservador. 

Z: Isso teve alguma relação com o know-how de conservação que você teve por causa da enchente da Cinédia? 

Hernani: Olha, o caso da enchente da Cinédia era um trabalho muito pontual: não se tratava mais só de conservar o que tinha sido atingido pela chuva, pois aquilo ia deteriorar – como deteriorou – anos mais tarde. No caso da Cinédia era uma questão ou de restaurar ou de duplicar; então, se fazer um material novo e obviamente ter a preocupação de salvaguardar esse material novo. A questão da Cinemateca era diferente: tinha um acervo, e você tinha que conservar esse acervo, que era uma coisa muito complicada nessa altura porque era um acervo muito grande; quando o Francisco saiu a Cinemateca tinha cem mil rolos. Era um acervo pra mim desconhecido; por mais que ele me ajudasse, toda hora telefonava pra ele e tal, mas por mais que ele me ajudasse eu tinha que dar conta de uma coisa física à minha frente e isso foi muito difícil porque eu não sabia de forma mais profunda o que era o trabalho de conservação, tinha vagas noções. Isso em 99, então eu tive que aprender, estudar, ler, e inclusive na prática gerar alguma experiência. E logo em seguida veio a crise da Cinemateca em 2002 e parte dessa experiência se perdeu. De qualquer maneira foi importante ali entender os mecanismos de uma cinemateca, de alguma maneira tentar salvar a Cinemateca do Mam, aquele período foi um período muito difícil e de um aprendizado muito grande.

Parte 5

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