Entrevista: Ênio Gonçalves – Parte 3

Dossiê Ênio Gonçalves

Entrevista com Ênio Gonçalves
Parte 3: São Paulo
 

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Por Gabriel Carneiro
Fotos: Pedro Ribaneto

Z – Você fez também Águias em Patrulha.

EG – Não, esse eu não fiz, é do outro Ênio Gonçalves, meu homônimo! Isso é filme paulista dos anos 60. Em 1970, vim a São Paulo, passar uma temporada e visitar aqui, aí eu entrei em contato com o José Rubens Siqueira, que conheci durante a filmagem de Brasil Ano 2000, em Paraty, que durou dois ou três meses. Ele e a mulher dele, Maria Helena Grembecki. O filme foi rodado em 1968. Vim a São Paulo em 1970 e encontrei o José Rubens Siqueira e ele falou: “Ênio, to estrelando uma peça aí, o ator que tá fazendo vai ter que sair logo. Ele nem estreou ainda, mas vai ficar só um mês. Você não quer fazer?”. Falei: “Oh, tudo bem, seria legal ter uma experiência aqui em São Paulo e tal”. O outro cara também chamava Ênio, Ênio Carvalho, era meu colega de turma de teatro lá em Porto Alegre, ia ter que largar a peça depois de um mês, tinha outro compromisso e entrei no lugar dele. Era uma peça do Mário Prata, O Cordão Umbilical. Primeira peça que o Mário Prata escreveu. Fiz uma carreira longa aqui em São Paulo com a peça e fiquei muito amigo do Mário Prata. Muito amigo mesmo, fui morar no apartamento dele com o irmão dele, o Leonel Prata, ali no Copan. Aí fiquei aqui. Me queriam para um papel de um protagonista de uma novela da Tupi, Simplesmente Maria. Foi quando realmente estreei em televisão, nessa novela, com a Yoná Magalhães.

Z – Aí você começa a ser regular na TV.

EG – Aí começa a minha carreira na televisão, foi quando ganhei pela primeira vez na minha vida, ganhei um belo de um salário, comprei carro, aquelas coisas (risos). Fiz os primeiros cem capítulos. Levei um baile nessa novela, porque não tinha experiência de televisão. Nesse tempo, as novelas tinham um diretor, dois ou três atores que protagonizavam, e esses caras ficavam enlouquecidos, porque era tudo em cima deles. As novelas tinham três protagonistas, o vilão, a mocinha e o mocinho, os outros papéis eram pequenos e esses caras trabalhavam que nem loucos. O autor escrevia sozinho e no fim de três meses ele tinha um ataque cardíaco. O diretor também era um só. Com as externas, você gravava segunda, terça e quarta, em dois dias você tinha que gravar sete capítulos, oito capítulos, era uma loucura. Eu, realmente, tive um piripaque fazendo essa novela, era muita coisa pra mim. Tinha um momento que não conseguia nem mais entender o que tava fazendo, não decorava mais texto. Foi uma experiência traumatizante. Mas, pessoalmente fiz sucesso, eu fotografava bem, o papel era interessante, é um sujeito rico que se envolve com a empregada doméstica, tem um filho com ela e tal, um dramalhão mexicano (risos) O sucesso de público foi importante. Depois fiz outras novelas, como Hospital. Em 1976, fiz uma novela também muito importante para mim, do ponto de vista de divulgação da minha imagem, que foi Xeque-mate, com a Lilian Lemmertz, Maria Isabel de Lizandra, Rodolfo Mayer, Edney Giovenazzi, um elenco fantástico. Foi uma novela muito bem produzida, de época. Aí comecei a fazer baile de debutante, passei dois ou três anos fazendo baile de debutante, ganhando dinheiro com isso (risos), do ponto de vista promocional, foi importante essa novela, Xeque-mate.

Enio13A-225x300Z – Paralelamente a isso você fez teatro.

EG – É, comecei a escrever também e montei alguns espetáculos que escrevi. Voltei ao cinema para fazer um filme com o Braz Chediak, que foi um grande sucesso de público, chamado Eu Dou o que Ela Gosta, filmado no interior de Minas Gerais, no mesmo lugar onde a gente tinha filmado O Menino e o Vento, do Christensen.

Z – Nesse começo de carreira e depois, como você escolhia seus papéis?

EG – Outro dia, fiquei até espantando, quando vi o Seu Jorge falando, “Vou fazer filme com o Vincent Cassel, os outros diretores brasileiros que me desculpem, mas não vou poder filmar com eles”. Nunca tive essa de “Pô, vou escolher o que vou fazer”. Recusei alguns papéis, claro. Mas geralmente você faz para a sobrevivência, para a minha sobrevivência. Acho que não tô com essa bola toda, vou brigar para fazer. Escolhi o que fui chamado e fiz, porque precisava fazer, precisava ganhar um dinheiro, mesmo que fosse pequeno, precisava sobreviver na carreira. Nunca fiz uma carreira na televisão, nunca fui contratado na televisão. Fiz contrato na televisão para poder fazer a novela, nunca fiquei à disposição da emissora, recebendo salário, nunca tive essa colher de chá. A televisão é onde se ganha dinheiro. Fui contratado para fazer aquela novela específica, enquanto trabalhei ganhei. A novela acabou, acabou meu trabalho. Fiz, acho, nove novelas só – muitos teleteatros na TV, no canal 2, na TV Cultura. Muitas vezes, fui obrigado a fazer filmes que não tinha grande interesse, mas fiz com prazer, não me arrependo de ter feito nenhum, porque sempre conheci gente maravilhosa. Sempre falo: na carreira no teatro, TV e cinema, conheci as pessoas mais bacanas da minha vida. E também conheci as piores. Os alunos de cinema vinham me perguntar “Você fez pornochanchada?” Eles imaginam que fiz sexo explícito. A pornochanchada, na nossa época, todos nós fizemos, eu fiz, Tony Ramos, Nuno Leal Maia, todos eles fizeram, Dênis Carvalho. Hoje esses filmes poderiam passar na sessão da tarde, era simulação de sexo. Era um filme, talvez até de mau gosto, mas que não era agressivamente sexual. Fiz uns desses filmes e não me arrependo de ter feito nenhum, era sempre divertido, encontrei muita gente legal, convivi com muita gente legal, estabeleci relacionamentos maravilhosos, adoro o Fauzi Mansur, fiz seis ou sete filmes com ele, um cara que tem um puta conhecimento de cinema. Ele tem uma visão de cinema fantástica. Faz suas pornochanchadas, mas e daí? Um dia vai ser revista a obra do Fauzi Mansur. Tem alguns filmes dele ousados demais, mas com uma linguagem de cinema fantástica. Fiz alguns filmes com ele muito bons. Na época diziam: “Poxa, olha aí, pornografia”. Não era pornografia, é pornochanchada, um gênero que não era pura pornografia. Filmes ousados, maliciosos…

Z – Você se mudou para São Paulo em 1970, e, nesse período, ficou um tempo sem filmar, e só voltou com o Eu Dou o que Ela Gosta, do Braz Chediak. Por que isso?

EG – Porque não havia convite, ou não pude fazer. Fazia muito teatro em São Paulo. E fiz muita novela nessa época. Para fazer o filme do Braz Chediak, fui para o interior de Minas, onde foi rodado. Tive que largar o Última Hora, onde tinha carteira assinada. Ele insistiu tanto – não queria largar tudo. O Samuel adorava trabalhar com gente de teatro, a Martha Góes, o Oswaldo Mendes, a Joana Fomm, o Plínio Marcos. O Samuel adorava namorar as atrizes. Conversei com ele, que minha carreira de ator estava meio por baixo. Fui para o interior de Minas, mesmo lugar em que O Menino e o Vento foi rodado, e filmamos por três meses. Voltei para São Paulo, e voltei para o Última Hora, mas sem carteira assinada. Depois de Eu Dou o que Ela Gosta é que fui chamado pelo Fauzi Mansur para fazer Belas e Corrompidas.

Parte 4

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