Cara a Cara

Dossiê Ênio Gonçalves

 

Cara a Cara
Direção: Julio Bressane
Brasil, 1967. 

Por Vlademir Lazo 

Cara a Cara é um belo primeiro longa de Julio Bressane, que o dirigiu aos vinte e um anos de idade. Um filme triste e bonito, sem a literatice que marca muito de suas obras posteriores (como um dos mais recentes, Filme de Amor), mas também sem as características habituais das produções do cinema marginal, que só explodiria no ano seguinte. Cara a Cara é mais Cinema Novo, na linha de São Paulo S.A., mas com algumas pitadas de loucura e violência que eclodiriam nos trabalhos seguintes do cineasta. E tendo no elenco a presença de Helena Ignez (ex-namorada de Bressane) no papel da musa do protagonista, além de uma participação do então muito jovem Enio Gonçalves. 

O filme é sobre um angustiado funcionário público (Antero de Oliveira, excelente) que, com o desgosto estampado em seu semblante, padece cuidando da mãe idosa e doente (Vanda Lacerda), enquanto sonha com a rica filha de um político corrupto (Paulo Gracindo). Enquanto o seu objeto de desejo perambula cheia de tédio pelas rodas sociais e fúteis em que convive, o protagonista se deixa levar por situações caóticas e violentas. 

Cara a Cara também tem nuances políticas, que remetem diretamente à Terra em Transe (lançado no mesmo ano), especialmente nas sequências do discurso do político corrupto no plenário vazio (cena ao som de um canto sem letra de Maria Bethânia como trilha) ou do nervosismo dos poderes políticos e religiosos reunidos num terraço (onde o cenário e o passeio da câmera lembram bastante o filme de Glauber Rocha). 

Por outro lado, Cara a Cara tem lances de nouvelle vague, como pode ser visto em alguns dos melhores momentos do filme, quando observamos Helena Ignez na aula de ballet , ou quando ela e sua amiga (interpretada por Maria Lucia Dahl) experimentam trajes de época para uma festa, tendo a companhia de um amigo (João Paulo Adour), uma seqüência inesquecível em ritmo de cinema mudo, só com caras, bocas e passos ligeiros (citação à Jules e Jim, de Truffaut). Ou então na linda e melancólica cena de amor com seu namorado. 

Ainda que meio obscurecido por não ser uma radical experiência cinematográfica como a maioria dos seus filmes, esse longa de estreia é um primeiro atestado que confirma a capacidade de Bressane em tirar grandes filmes de orçamentos muito baixos, aliado à rapidez com que filma cada trabalho seu.

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