A Volta do Regresso

Dossiê Ênio Gonçalves

A Volta do Regresso
Direção: Marcelo Valletta
Brasil, 2007. 

Por Cid Nader 

Lançado no ano de 2007, A Volta do Regresso parece um estímulo à compreensão e observação de um gênero que tem ganhado seu justo reconhecimento a cada golfada de novos cinéfilos, e de um certo movimento crítico, mais propensa a entender melhor as nuances (e evidente riqueza) de nosso cinema “pré-acabamento à Globo Filmes”. Como não é possível deixar de lembrar do profícuo período da pornochanchada (algo que se estendeu mais fortemente do início dos 70 aos meados dos 80 – chutaria, para não querer enclausurar tal “escola” em períodos rígidos) como uma marca de nossos pendores à apreciação da beleza, não é justo deixar de lado uma das razões de sua maior fartura no período citado decorrendo das obstruções que o período da ditadura militar impôs aos trabalhos que ameaçassem abertamente citá-la com “intenções contra-revolucionárias”.

Mas, talvez, a maior marca mesmo (para os conhecedores e para os que passearam superficialmente pelo estilo) esteja na figura de alguns atores que são reconhecidos em suas carreiras (para o bem e para o mal, já que muitos “sofreram” com a pecha de um estigma meio maldito) por serem presenças constantes nas produções mais conhecidas que brotaram dali. E Marcelo Valleta, reverente ao modelo, provável adorador do período, e, certamente, agindo como um arrogador das virtudes de figuras que considera mais importantes do que as “notáveis do brilho fácil”, fez esse seu curta-metragem amparado fortemente nas presenças pra lá de icônicas de Ênio Gonçalves e de Carlo Mossy – com uma leve e bem-vinda canja para a bela figura de Kate Hansen (sonho de consumo de muitos meninos).

Ao contar a história de um diretor novato que vai à busca de um ator/ídolo/”incompreendido” (Mossy nos tempos atuais)  para interpretar um papel numa nova produção, Valleta faz  de Ênio Gonçalves uma espécie de guru/produtor e determina um trabalho que se nutre dos mais variados elementos que o cinema da época da pornochanchada utilizou. Além da escancarada homenagem a esses três atores – que é bela porque se faz a partir da devoção a eles ultrapassando as posições ante as câmeras, para se fixarem também na figura do personagem/diretor (uma representação evidente do fascínio do diretor real, que ganha corpo e voz no fictício) -, A Volta do Regresso tenta em outras instâncias similaridades nas excelências de então: os modelos de angulação das lentes em muitos instantes têm a mesma busca, por prismas dos mais repetidos, e limpidez das imagens (aí com obtenção auxiliada pelo modelo de iluminação e vigor nas cores) – há também ousadia bastante interessante num travelling pendular que se faz entre dois cenários, e um belo close de Mossy, tomado de cima, que consegue um resgate mais iluminado do rosto marcado pela idade com inteligência na captação do brilho de seus olhos azuis -; a música quase de elevador que retoma muito do que se fazia então; o humor meio “sacana”, sem ser escancarado, mais malandro; a pinga sendo bebida no lugar do Wiskhy num típico bar urbano de então…

Longe de ser revolucionário, sua força está totalmente na ideia de ser reverente e evocador de um modelo muito específico, com complementações evidentemente obtidas por aprendizado em escola de cinema. E não bastassem tais reverências em filme, ainda há uma outra logo no início dos créditos finais, com louvável citação em homenagem a Guará Rodrigues (que extrapolou as fronteiras, indo ao cinema marginal e ao trash, também). 

Cid Nader é editor do site Cinequanon (www.cinequanon.art.br).

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