O Avesso do Avesso

Dossiê Tony de Souza


O Avesso do Avesso
Direção: Tony de Souza
Brasil, 1986. 

Por Vlademir Lazo

Não é necessário ter lido antes sobre O Avesso do Avesso para que diante dele percebermos que se trata de um filme de produção paupérrima. Seus recursos na tela são visivelmente tão pobres e mínimos que nos fazem pensar nos exemplares recentes do Cinema de Bordas (muito antes do termo existir), mas ao contrário dos filmes de Bordas, que quase sempre se assumem como trashs e amadores (e fazem dessa condição um motivo de orgulho e razão de ser), em O Avesso do Avesso é possível enxergar uma luta de seu realizador para dar um acabamento ao seu filme, resultando em uma das tentativas mais interessantes do cinema brasileiro da época em transformar a precariedade de recursos em criação. 

Primeiro longa de Tony de Souza, após ter dirigido três curtas-metragens e trabalhado bastante como assistente de direção, O Avesso do Avesso é fruto de sua precariedade de meios. Distante da possibilidade de um financiamento oficial, Tony de Souza o filmou em 16 mm com a idéia de depois ampliá-lo para 35 mm, recurso que chegou a ser utilizado durante o cinema marginal brasileiro e que durante a própria década de oitenta diversos diretores veteranos ainda lançavam mão. Porém, O Avesso do Avesso não seria bem um representante tardio do Cinema Marginal, tampouco se filiaria a algum contexto especifico da nossa cinematografia ou de qualquer outra coisa que estivesse sendo feita na época. 

É um filme fora de tempo, uma impossível tentativa de fazer cinema em meio à queda da Boca do Lixo (onde Tony de Souza fora assistente de direção), que então em declínio estava por fechar suas portas com o ciclo dos filmes de sexo explicito (o próprio diretor declara que O Avesso do Avesso foi feito pela vontade de mostrar seu amor não apenas pela cidade de São Paulo, mas também pela Rua do Triunfo). 

O cineasta confessa também sua inspiração no cinema de Ozualdo Candeias, que extraia um sentido estético sublime através de sua precariedade e das locações, e também sem a necessidade de ilustrar seu filme com explicações orais ou diálogos em excesso. De certa forma, O Avesso do Avesso bem ou mal é um dos filmes que parecem fechar um ciclo de vinte anos de tentativas do cinema paulista entre o autoral e o popular (iniciado com A Margem do próprio Candeias ou com os primeiros filmes de terror de Zé do Caixão), ou quem sabe uma luta (sem resultados) por ao menos recomeçá-lo. 

O Avesso do Avesso é um filme de cinéfilo. Mas também sobre a cidade do seu realizador, mais especificamente, a sua periferia: um filme envolvido na atmosfera de pó e fumaça. Seu protagonista é Chico (Pedro Lacerda), um operário de uma fábrica de gesso, que acorda diariamente de madrugada para se dirigir ao local de trabalho, onde se dedica a colocar a mão na massa ou levantar sacos de cimento. Uma peça insignificante de um quadro industrial, cuja enorme quantidade de fumaça jogada por suas torres pelo ar (por entre prédios e edifícios da metrópole) contrasta com a pureza das nuvens mostrada no primeiro plano. O filme começa e se encerra com as nuvens brancas do céu azul escurecendo a cada novo jorro de fumaça. 

O filme se concentra num dia de folga de seu personagem, a principio na sua moradia miserável na periferia, quatro paredes forradas com recortes, jornais e pôsteres da atriz de pornochanchada (Dalileya Ayala) por quem é obcecado. A própria distração de Chico é vagar pelos cinemas de rua que ofereciam sessões de filmes populares, e nos quais vemos cartazes de faroestes com Clint Eastwood, filmes de sexo ou títulos de terror como Zumbi Holocausto. 

O Avesso do Avesso se divide entre a realidade e fantasia do protagonista, seus devaneios e ilusões. Deitado em seu quarto e imaginando como sua vida poderia ser diferente, entre lembranças da vida no interior e da noiva que teve que abrir mão, Chico vai ao cinema vestido à maneira do personagem do “homem sem nome” dos primeiros faroestes de Sergio Leone e entra numa sessão de Por um Punhado de Dólares, daí os cenários dos filmes e fantasias de Chico tomam forma até ele perder o controle da realidade. O filme então ganha cor, as imagens ganham em colorido, algo que não existe enquanto o cotidiano do personagem estava em primeiro plano. 

Tudo ao som de música brega, sintetizadores típicos da década de oitenta e trechos de Ennio Morricone tirados de algum LP com trilhas de faroeste italiano. O Avesso do Avesso vai se fazendo a partir de sua própria insuficiência, entre momentos irregulares e outros mais inspirados, com o maior mérito de (goste-se ou não do resultado) escapar do humor involuntário no qual sua premissa poderia descambar. Um filme feito entre amigos, mas com enorme vontade criadora, que pede um olhar menos de complacência do que de compreensão do filme em si.

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