O Expresso para Aanhangaba

Dossiê Tony de Souza

 

O Expresso de Aanhagaba
Direção: Tony de Souza
Brasil, 2002. 

Por William Alves

Em uma espécie de bula contida em seu site, o diretor Tony de Souza explica como não conseguiu obter recursos suficientes para realizar O Expresso de Aanhagaba como inicialmente planejou. Diante da indiferença dos responsáveis pela Lei Audiovisual em relação ao seu projeto, Tony resolveu transformar o longa-metragem em um telefilme. Isso explica muita coisa, visto que O Expresso de Aanhagaba é tão ruim quanto qualquer novela. 

Típico caso em que a “proposta” do autor se choca brutalmente com  a avaliação. Afinal, o que exatamente transforma o filme em uma tremenda perda de recursos mentais? A canastrice geral? O proto existencialismo autoindulgente de seu protagonista? Clichês que não têm mais graça (velhos de classe média vomitando conhecimento de causa em vernissages)? Todas essas críticas são indolores à obra e ao seu diretor. Afinal, “é um telefilme”. 

Na história, Rafael, publicitário arrependido,  finalmente decide se dedicar à verdadeira aspiração: diretor de cinema. Anidra, bonita estudante de arte, se envolve com traficantes para poder custear uma viagem – que ela presume que será automaticamente life changing – à Nova Iorque. Os dois personagens se cruzarão, o que ocasionará a pior versão de Lolita já encenada. 

E, claro, há as temidas referências, quase todas elas retiradas do livro Utopia, de Thomas More. Tony resolveu nomear os personagens principais com nomes retirados da obra. No arco da exposição de artes plásticas, o diretor resolve empilhar todos os seus livros teóricos de mestres do cinema: dá-lhe Cassavetes, Tarkovski, Kurosawa e Bergman… é até uma tristeza que a osmose não se aplique.

 Adriano Stuart, no papel de um bicheiro entediado cheio de grana para rifar, surge lá pelos quarenta minutos de projeção e imprime algum divertimento ao negócio. Afinal, quando ele afirma que não gosta muito “desse negócio de cinema de arte”, a referência é o próprio Stuart. Vide filmografia, em que se destaca o hilário “Cada Um Dá o Que Tem”, co-dirigido por ele. 

No mesmo texto em que Tony disserta sobre o filme, há um trecho em que ele afirma que a principal inspiração para O Expresso de Aanhagaba foi O Passageiro – Profissão Repórter, do italiano Michelangelo Antonioni, com Jack Nicholson como protagonista. E não é que mesmo com um balaio tão caprichado de influências, Tony não conseguiu absorver absolutamente nada da verve desse pessoal? 

Está aí, pois, a verdadeira graça desse telefilme.

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