Filme-Farol

Por Matheus Trunk

O Sexo Nosso de Cada Dia
Direção: Ody Fraga
Brasil, 1981

Certas obras cinematográficas devem ocupar um pedestal para servir como referência. São filmes excelentes que prendem a nossa imaginação durante semanas e meses. O Sexo Nosso de Cada Dia, de Ody Fraga, é um longa-metragem dessa grandeza.

Todos os ingredientes da obra do realizador estão nessa fita. Seja na crítica ferrenha à classe média, o desprezo pelos intelectuais e na aversão pelas religiões. Verdade seja dita: nem todos os filmes de Ody foram dirigidos com o mesmo empenho. Alguns, ele fazia rapidamente, sem nenhum tipo de carinho especial.

Mas quando colocava seus dotes autorais, Fraga deixava todo mundo no chinelo. A Filha de Calígula e Senta no Meu, Que Eu Entro na Tua são provas disso. Mas é indiscutível que O Sexo Nosso é seu melhor trabalho. Pra quem não conhece, segue uma rápida sinopse: Bionda, Lola e Letícia são três amigas que decidem alugar um ponto de prostituição de rua. Todas são burguesas e insatisfeitas sexualmente. O argumento pode soar parecido com A Bela da Tarde, de Luis Buñuel. Mas não é apenas isso. O Sexo é um banho de cinema.

Das três atrizes principais do filme, quem merece mais atenção é Neide Ribeiro. Nesta película, a moça de Taubaté literalmente encarna sua personagem. Afinal, talento e garra são adjetivos que ela carregou durante toda a sua trajetória. Neide é uma leoa como atriz e era a intérprete favorita de Fraga. Tanto que os dois trabalharam juntos em seis longas-metragens.

O Sexo Nosso de Cada Dia é o filme feminino do diretor. As mulheres são o centro de tudo. Na trama, os homens são meros capachos das protagonistas. Com uma sensibilidade fora do comum, Fraga consegue captar o espírito feminino em cada fotograma. Tudo isso sem nenhum tipo de tratado científico. Afinal, Ody sempre procurou falar diretamente com o povão. Seus filmes eram destinados ao público de origem humilde que pagava o ingresso do Cine Marabá.

Este talvez seja o aspecto mais interessante de sua personalidade. Intelectual refinado, ele tinha um respeito muito grande com seus espectadores. Seu grande troféu não eram os altos financiamentos da Embrafilme. Muito menos as críticas favoráveis. Ele também não procurava o reconhecimento da classe acadêmica. O que ele queria eram as filas enormes nas entradas dos cinemas.

É importante ressaltar que a cidade de São Paulo é uma espécie de personagem no filme. Várias cenas foram feitas na própria Boca do Lixo. A genial fotografia de Cláudio Portioli, parceiro de Ody em diversas produções, também merece ser destacada. Nas cenas noturnas, o técnico utilizou recursos variados que deram um capricho especial a O Sexo Nosso de Cada Dia.

Fraga me influenciou de maneira verdadeira. Criei uma verdadeira dependência quando assisti esta película. Durante uma semana inteira, vi e revi as aventuras das amigas Bionda, Lola e Letícia todos os dias. Cheguei a decorar algumas falas durante o período. As três amigas são personagens fascinantes.

Em 2011, O Sexo Nosso de Cada Dia completa 30 anos. Um clássico como esse merece ser conhecido por diversas gerações de cinéfilos. Ody Fraga não merece apenas este artigo. Merece ser documentário, livro, minissérie, virar nome de rua, alameda, avenida. Sua trajetória está gravada na perpetuamente no cinema brasileiro.

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