O Guarani

Especial O Índio no Cinema Brasileiro

O Guarani
Direção: Norma Bengell
Brasil, 1996.

Por William Alves

Não há espaço para inferência em O Guarani. Tudo é, meticulosamente, explicitado em voz alta, e a índole dos personagens ou é branca, ou é preta. Não existem desinteressados, acomodados ou indiferentes. O núcleo sórdido do filme tem sua representação máxima em Loredano, interpretado por José Abreu, que tenciona tomar a fortuna do chefe, Dom Antônio de Mariz, e deflorar a cobiçada Ceci, filha do senhor de terras. Ceci, que capitaneia a turma do bom coração, só deseja o índio Peri, que vive nas redondezas como um bicho de estimação de luxo. O anseio da moça é frustrado pelo fato incontornável de que Peri é um… índio, né? De maniqueísmo em maniqueísmo, de luta de classe em luta de classe, um longa-metragem vai se formando.

Dirigido por uma das eternas musas do cinema nacional, Norma Bengell, e baseado no romance clássico de José de Alencar, O Guarani é constantemente rememorado mais pelo fracasso de público e por supostas irregularidades financeiras envolvendo a produção do que pelo filme em si. Um dos papéis principais ficou para Marcio Garcia, até então uma emergente estrela oriunda de telenovelas Globais. O resto do elenco foi povoado por figuras célebres, como Herson Capri, Glória Pires e o já mencionado Abreu.

Na história, que tem como pano de fundo o Brasil do século XVII, Peri e a filha dos nobres, Ceci, vivem um amor platônico, depois que o nativo salva a vida da moça. Peri conquista, então, o direito de morar – ou pelo menos passear pelo quintal – na casa do colonizador, Dom Antônio de Mariz, pai de Ceci. Dom Diogo, também filho do colonizador, acaba assassinando um índio aimoré. A família passa a viver em tensão, aguardando uma violenta represália dos indígenas. Mesmo com toda a forte segurança privada que Antônio de Mariz é capaz de custear, é Peri quem acaba tomando para si a tarefa de defender a família e, como bônus, ficar mais perto do seu amor.

Peri, inclusive, parece imune a qualquer humilhação. E o desprezo dos portugueses pelo humilde indígena é demonstrado explícita (“quero esse selvagem fora daqui”, exclama a matriarca) ou implicitamente, através do sectarismo português, que só julga digno de respeito os batizados na cristandade. Peri, que é mais simples, não liga para nada disso e só busca a aprovação de Ceci. Os dois mal se tocam, apesar do desejo evidente. E é nessa tensão sexual que reside o único apelo do filme. Visto que todo o resto é escancarado em voz alta.

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