Mato Eles?

Especial O Indio no Cinema Brasileiro

Mato Eles?
Direção: Sérgio Bianchi
Brasil, 1982.

Por Sérgio Andrade

Diante da questão indígena muita gente gostaria de adotar a filosofia do General Sheridan, aquele que dizia que “índio bom é índio morto”.

O diretor Sergio Bianchi, sempre disposto a provocar, decidiu encarar o problema.

Nascido em Curitiba, mas morando em São Paulo, ele decidiu, no final dos anos 1970, voltar à sua cidade para realizar um filme. Na sua busca por investimento, chegou a ser acusado de tentar agredir o Secretário da Cultura com uma barra de ferro. Esclarecido o assunto, conseguiu a verba necessária e uma carta de apresentação para tocar um projeto, que veio na forma de um documentário sobre os índios da reserva Mangueirinha, no sudoeste do Paraná.

Utilizando como base o texto Paraná Nativo, de Jacó Cesar Piccoli, e uma equipe reduzida (fotografia de Pedro Farkas, som de Marian Van de Ven), munido de sua ironia particular, Bianchi faz uma série de perguntas a padres, índios, funcionários públicos, ao espectador e a ele próprio sobre o que acontece na tal reserva. Mas não espere por respostas definitivas.

A morte do cacique Ângelo Cretã em janeiro de 1980, num acidente de carro até hoje não solucionado, dá início a várias questões de múltipla escolha, como se fossem perguntas de vestibular, escritas na tela.

Na reserva onde vivem índios Guaranis, Kaincangs e um Xetá (provavelmente o último da sua tribo, o que leva ao momento mais divertido do filme), a Funai tinha uma serraria onde os índios eram usados como mão de obra barata e as toras eram vendidas para outras firmas madeireiras da região. A pergunta sobre o que acontecerá com os indígenas quando a madeira acabar é feita diversas vezes, sem que ninguém saiba dar uma resposta satisfatória (a melhor delas: “vamos ficar olhando um pra cara do outro”). A alegação de que era cortada apenas madeira desvitalizada é desmentida por um dos índios. Aliás, vale assinalar que é o diretor Bianchi que questiona os entrevistados, às vezes por trás da câmera e outras vezes diante dela.

Ele se antecipa aos documentários atuais, que misturam realidade com ficção, ao colocar dois atores – uma representando uma socialite e outro um professor – dando falsos depoimentos. E também não se exime de culpa, ao mostrar um velho índio perguntando quanto ele iria faturar com o filme.

Ao final, enumera as diversas formas de se ganhar dinheiro defendendo os índios, antes que eles acabem: comprar terras da reserva; fazer um livro de fotografia; pegar objetos indígenas para vender numa loja; desenvolver uma pesquisa acadêmica visando bolsa de estudo; criar uma ONG ou então filmar um documentário sobre o extermínio indígena para ganhar passagens de graça para diversos festivais de cinema em várias partes do mundo…

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