Hans Staden

Especial O Índio no Cinema Brasileiro

Hans Staden
Direção: Luis Alberto Pereira
Brasil, 2000.

Por William Alves

Como é de praxe, a Fundação Nacional do Índio preparou todo tipo de festividade (e efusividade), no 19 de abril, dia brasileiro dos indígenas, instituído por Getúlio Vargas. Pelo que lhe cabe, a Funai realizou mais uma (justa) homenagem à uma cultura riquíssima, que influenciou gente de todas as índoles, de diretores cinematográficos de faroeste a alguns rockstars, como os norte-americanos do The Cult. No entanto, toda essa benigna efervescência desaparece de imediato do imaginário quanto se assiste a esse Hans Staden.

O personagem-título é um imigrante alemão que naufraga no litoral de Santa Catarina, pouco após o descobrimento do Brasil, em 1500. Ao se embrenhar em terreno desconhecido, Staden acaba sendo capturado pelos índios tupinambás, que abertamente declaram a intenção de devorá-lo, no sentindo denotativo do termo. A luta do imigrante, então, é para permanecer vivo, mesmo que isso signifique ser tratado – ou “suportado” – como um arredio bicho de estimação.

Os pragmáticos indígenas do diretor Luis Alberto Pereira destoam brutalmente das injustiçadas figuras raquíticas, banidas e humilhadas em sua própria terra, descritas em grande parte dos livros escolares. O filme é escuro é opressor: os nativos estão sempre concebendo rituais que exigem a permanência de Staden, como que para lembrar constantemente ao “convidado” que, em algum momento próximo, ele estará borbulhando em um caldeirão. Mesmo apavorado, é impressionante como o alemão consegue utilizar a religião a favor da própria sobrevivência. Ao instigar mitos que atemorizam os índios (“meu Deus está concebendo essa chuva porque vocês querem me comer”), Staden compra mais alguns preciosos meses de vida. Mas até quando?

O pouco apreço que os tupinambás demonstram por Staden, a quem julgam português, se converte em patética submissão na presença de seus (supostos) aliados, os franceses. O mesmo brilho que figura nas retinas de um tupinambá que devora um pedaço caprichado da perna de um membro de tribo rival é o mesmo que aflora com a visita dos negociantes franceses, devidamente acompanhados de seus espelhos, facas cegas e tesouras inúteis.

Curiosamentente, Carlos Evelyn, que comove com a atuação do protagonista, é mais conhecido por suas aparições em telenovelas, como Celebridade. O deus dos Tupinambás deve estar furioso.

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