Caramuru, A Invenção do Brasil

Especial O Índio no Cinema Brasileiro

Caramuru, a Invenção do Brasil
Direção: Guel Arraes
Brasil, 2001.

Por William Alves

Diogo Álvares, o personagem, representa a legítima encarnação do português panaca. Sua mania execrável de sempre acreditar em qualquer um que não em si mesmo acaba forçando o seu degredo ao Brasil, sobre o qual os artistas pobres, como ele, não sabiam absolutamente nada. A embarcação que o transportava naufraga, e ele se vê perdido em meio à tribo dos temíveis tupinambás. Na história oficial, conta-se que os índios assassinaram todos os companheiros de barco de Álvares. O diretor Guel Arraes, por devida conveniência, não menciona o episódio sangrento e prefere focar suas lentes nas peripécias do bem-humorado artista.

Álvares conquista dos indígenas a alcunha de “Caramuru” – algo como “Pau que cospe fogo” –, após disparar uma rajada da arma de fogo que levava consigo. Melhor: Caramuru, além de uma nomenclatura estilosa, conquista o direito de fornicar livremente com as curvilíneas índias Paraguaçu e Moema (interpretadas, respectivamente, por Camila Pitanga e Débora Secco), que se enrabicham pelo rapaz logo no início. Ambas são criaturas despachadas. Ou “tupinambás hospitaleiras”, como preferem os franceses que também aportam naquele pedaço colonizado de terra.

Há de se ressaltar a enorme similaridade de Caramuru com o filme mais conhecido de Arraes, O Auto da Compadecida. Além de compartilharem o protagonista (Selton Mello, que também atuou em Lisbela e o Prisioneiro, terceiro longa do diretor), partilham do mesmo modus operandi: os personagens falam muito, expelem sem reservas todos os pensamentos que brotam em suas respectivas telhas. E toda essa verborragia vem na forma de piadas ou anedotas. Como a grande maioria desse fluxo interminável de prosa é, de fato, espirituosa, inegável mérito para Arraes e seu escudeiro, o também diretor Jorge Furtado. Que, certamente, se debruçaram sobre um volume colossal de script.

Os dois condutores do filme também são “ajudados” pela fotografia paradisíaca proporcionada pela praia de Picinguaba, que serviu de cenário para a parte brasileira do filme. Não por acaso, a cena mais bonita do filme não contém palavras: Moema, vencida pelo cansaço após furiosas braçadas, observa o barco de Paraguaçu e Álvares partirem para a Europa, onde Caramuru sempre foi um pouquinho mais infeliz.

Como o longa foi produzido pela Globo Filmes, era freqüente a sua exibição nas tardes da emissora, talvez numa referência velada a outro clássico tropical das exibições vespertinas da Globo, o estadunidense A Lagoa Azul, com Brooke Shields. Na dúvida, não hesite demais: Brooke, nos desculpe, mas o nosso é bem melhor.

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