Brava Gente Brasileira

Especial O Indio no Cinema Brasileiro

 

Brava Gente Brasileira
Direção: Lucia Murat
Brasil, 2000.

Por Filipe Chamy

Não é preciso lembrar dos infames exemplos dados por gente como os Bolsonaros da vida para perceber que o Brasil não está muito longe de seus primitivos preconceitos étnicos. Podemos dizer que hoje já não somos colônia, mas certamente ainda temos um pensamento colonial.

Solapamos parte de nossa ancestralidade ao ignorar a cultura indígena, ao ponto de termos magnífica dificuldade em compreender seus gestos, seu pensamento, suas pinturas corporais ou faciais, até mesmo sua língua. Os dialetos dos nativos de nossa terra nos parecem mais misteriosos que todo o exotismo linguístico de um Oriente inteiro.

Então aí chegamos na ironia: a distância dos colonizadores é inexistente. Ou melhor, se ela existe, é temporal: porque no cerne é o nosso mesmo tempo. Nós somos desse jeito. Zombamos das diferenças, imitamos hábitos irracionais ruins, não queremos saber do que é diferente do nosso habitual. E quando queremos apreender ou aprender algo, já é tarde, dizimamos uma raça, uma cultura, uma etnia.

No filme de Lúcia Murat, temos um retrato dessa nossa característica brasileira e humana. À parte os trajes, somos aqueles ignorantes agressores de índios, a condená-los por monstros e feras e bestas por seus costumes, seu agir, sua vida. E também somos aquela religiosidade hipócrita representada no filme por um gordo padre (filmado como Orson Welles se filmava, de baixo para cima, ocupando a tela com sua pança malvada), lavando as mãos para os crimes que no fundo endossa com sua velada falsidade. E, claro, somos o europeu de olhares mais brandos, covarde na sua falta de ânimo para reagir, acomodado ante sua certeza de bons modos, incapaz de tentar fazer algo para mudar o que quer que seja — e que quando se mete a consertar algo, acaba por apressar o fim de tudo, para o bem ou para o mal.

Então temos um filme com códigos (cultura indígena) decodificado pelo nosso reconhecimento naqueles personagens. E se não é exatamente um mérito ser um espelho de nossa realidade, o filme balança entre extremos de uma certa poetização da realidade e uma crueza naturalista no choque entre o habitante e o invasor. Então vemos, com diferença de minutos, planos com a natureza, sons mágicos de produção rude mas delicada presença, e um homem rachando a cabeça de um menino que agrediu seu Cristo.

No fundo, mais que uma crítica ao atribulado processo de devastação do físico e moral do país, Brava gente brasileira é uma espécie de teatro de tipos que construíram a identidade desta terra. Se gostamos mais de nos imaginar como a bela indiazinha nadando nua e serena em águas despoluídas, em verdade estamos mais próximos do barbudo e truculento capitão do mato que escangalha uma paz em que não acredita. Bêbado, intransigente, desbocado e com ideias bem definidas sobre a moralidade pagã dos peles-vermelhas nacionais, o homem é parte do Macunaíma que Lúcia Murat mostra em seu filme, tentando não fazer julgamentos mas evidentemente ficando atrás em seu intento pela força das imagens.

E de tudo, o que fica é o contraste desagradável e necessário entre a felicidade dos índios do começo do filme, pintados por orgulho, altivos e joviais, e os índios guerreiros do fim, abatidos, embrutecidos e apagados numa miséria atávica que os condena a vagar como espíritos por entre as páginas só hoje revisadas da História. E mesmo assim, quem garante que eles retomem sua dignidade? Ao menos no cinema eles são livres para correr e respirar em sua terra, conviver com seu povo e tentar lutar contra as forças que os oprimem. E quando o cinema deixar de apoiá-lo, o índio morrerá de novo.

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