A Infidelidade ao Alcance de Todos

Dossiê Inácio Araújo

A Infidelidade ao Alcance de Todos
Direção: Aníbal Massaini Neto, Olivier Perroy
Assistência de montagem: Inácio Araújo
Brasil, 1972.

Por Ailton Monteiro

Quando se vê a filmografia do montador Silvio Renoldi não tem como não ficar admirado com a quantidade de filmes importantes que ele montou. Em 1972, quando ele montou A Infidelidade ao Alcance de Todos, Renoldi contou com Inácio Araújo como seu assistente de montagem. O Inácio Araújo que teve experiências também como diretor de cinema e que hoje é mais conhecido como um dos mais importantes críticos de cinema do país. A Infidelidade ao Alcance de Todos (1972) é um filme em dois segmentos baseado em uma peça de Lauro César Muniz e dirigido por Aníbal Massaini Neto e Olivier Perroy. O primeiro segmento chama-se A Tuba; o segundo, A Transa.

No primeiro, há um ar mais gostoso de pornochanchada, bem herdeiro das comédias italianas. É diferente do que viria a ser na década de 1980 porque a nudez é muito mais discreta. Aliás, neste primeiro episódio, nem nudez há. Há intenção de entreter e brincar com a figura do corno, tão “valorizada” na sociedade brasileira, a ponto de virar palavrão e objeto de vergonha e escárnio. Neste primeiro segmento, um político, interpretado por Raul Cortez, procura a mulher mais desejada da cidade. Por onde ela passa, o povo para pra olhar. O marido é meio bobalhão e só liga para sua tuba. Enquanto isso, o personagem de Cortez diz que quer apenas “olhar” para a mulher, só olhar. Ela aceita a proposta e a cada visita às escondidas do político, aparece com uma roupa mais insinuante.

O segundo episódio é uma espécie de sub-Khouri. Para uma maior aproximação, teria que haver no segmento o vazio existencial próprio dos filmes de Walter Hugo Khouri. Há aqui uma busca por sair da mesmice das relações desgastadas e tentar algo proibido e prazeroso com outra pessoa. A ponto de, no fim do filme, termos não apenas um quadrado amoroso, mas quase um sexteto. Há uma participação pequena de Clodovil e uma bem destacada de David Cardoso, já ganhando fama como garanhão. A nudez que parecia faltar no primeiro, aparece no segundo, mas nem por isso torna o segmento melhor.

Quanto ao trabalho de edição de Silvio Renoldi e seu assistente Inácio Araújo, como se trata de um trabalho mais popular e convencional, não há algo tão perceptível na forma do filme. Talvez o momento que mais evidencie o trabalho de montagem esteja na sequência do marido voltando para casa enquanto o outro está lá. Trata-se de uma montagem bem clássica e já utilizada desde os tempos do cinema mudo, mas é preciso ter boa mão para fazê-la bem. No segundo segmento, destaque para a cena de sexo na floresta, com a câmera rodopiando com frequência mostrando as folhas das árvores em paralelo com a expressão de prazer da mulher, em close-up.

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