A Noite do Desejo

Dossiê Inácio Araújo

A Noite do Desejo
Direção: Fauzi Mansur
Montagem: Inácio Araújo
Brasil, 1973

Por Vlademir Lazo

Ver A Noite do Desejo me levou a pensar em duas ou três coisas sobre o cinema brasileiro de hoje. A dignidade com que Fauzi Mansur filma seus personagens marginalizados, os operários de uma fábrica em busca de um sentido para suas vidas (ou ao menos de algo que lhes agrade), e as mulheres da noite que o acompanham, há muito é escassa na cinematografia nacional. Pensemos em um filme de sucesso como As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky, em que o irmão mais velho do protagonista jovem sentencia que não vale a pena encontrar uma prostituta, porque equivaleria ao mesmo que humilhar uma mulher. É uma cena breve e desimportante no filme de Bodanzky, mas que é fruto não apenas de uma excessiva visão politicamente correta quanto de uma uniformização de mundo em que todos devem pensar iguais dentro de classes sociais que não se misturam. Um outro sucesso de público ainda mais recente de nosso cinema, Bruna Surfistinha, vai além ao ter o meretrício como temática central. No começo, cercada de prostitutas humildes, a personagem-título aparece como vítima, e o ambiente miserável que a rodeia é tratado com evidente nojo pelas lentes da câmera do realizador. Mais tarde, quando a personagem se capitaliza, monta o próprio negócio e se torna bem-sucedida, o filme toma outro rumo e revela a sua moral: o que vale é fazer sucesso.

Ainda na comparação com Bruna Surfistinha, este parece ser um filme para um público que vê putaria na novela das oito, mas não gosta de “filme com mulher pelada” (como passou a ser estigmatizado uma parcela do que de muito interesse o cinema brasileiro produziu nos anos 1970 e 80). Bruna Surfistinha nos proporciona o corpo de Deborah Secco como um objeto de consumo a ser desejado, e embora tenha ao longo do filme diversas cenas de sexo ou nudez, cada uma delas geralmente são rápidas demais, ocorrem num átimo para que nosso olhar não contemple nem se concentre em nada. Faltam contemplação e um verdadeiro olhar dentro de um filme desses (e aqui não me refiro apenas ao sexo ou a nudez), diferentemente do que ocorre em um Falsa Loura ou Cleópatra (para citarmos outros filmes contemporâneos), por exemplo, ou de muitos trabalhos realizados num período distante por diretores (e filmes) como Fauzi Mansur e seu A Noite do Desejo.

A Noite do Desejo transcorre entre o crepúsculo de um fim de tarde e o alvorecer do dia seguinte. Mas dá conta de uma década inteira: o filme respira os anos setenta, as calçadas, as ruas, as boates, os homens, as mulheres etc. Um mundo. Ou ao menos uma cidade: a São Paulo do começo da década de setenta. A Noite do Desejo é daqueles filmes estigmatizados que fatalmente receberiam o rótulo de pornochanchada por aqueles que sequer o assistiram. Mas há pouco sexo ou mesmo nudez gratuita, e muita procura por calor humano. Toninho (Ney Latorraca) e Giba (Roberto Bolant), empregados de uma fábrica onde tiram horas extras em final de semana, perambulam por casas de strip-tease, os bordéis e as boates da época numa noite de sábado. A noite dos desejos.

As situações não são pretextos para sequências eróticas, pois estas se tornam inexistentes mesmo em meio ao périplo da dupla de protagonistas. Seus esforços os levam ao encontro de um par de prostitutas, Marcela (Marlene França) e Ivete (Betina Vianny, filha do crítico e cineasta Alex Vianny), com as quais seguem para um hotel de terceira categoria. As inseguranças dos rapazes se tornam mais claras, e as tentativas de lidarem com as garotas, nem sempre eficazes ou bem-sucedidas. Mais papo e conversas que sexo ou pegação. Mais solidão que divertimento.

As circunstâncias foram suficientes para que muitos invocassem o clássico Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri, de dez anos antes. O que não era mal algum, pois se trata de uma influência difícil de ser evitada naquele período, por ter aberto caminhos ao cinema paulistano em sua época. A Noite do Desejo, no entanto, vai muito além da referência khouriana. Um pouco devido aos cortes impostos pela censura, o diretor Fauzi Mansur e seu co-roteirista Luiz Castellini acrescentaram outras histórias paralelas à narrativa principal. Um outro rapaz (Ewerton de Castro), vindo do interior, chega à capital paulista para perseguir a namorada grávida (Selma Egrei), mulher da noite na cidade grande, que logo no começo dividira uma mesa com Toninho e Giba, que assustados pela condição de gestante da moça, a deixam de lado na primeira ocasião em que ela vira as costas.

Num primeiro momento, as cenas com Ewerton de Castro e Selma Egrei parecem enxertadas à fórceps na narrativa. Mas ao longo do filme vamos assimilando melhor a montagem intercalada, muito por conta de um ótimo trabalho de edição feito em conjunto por Inácio Araújo, Jean Garrett e o próprio Fauzi. A Noite do Desejo é filmado também com cores quentes, resultado de um belo tratamento de imagens e atmosfera trabalhados por Fauzi e pela fotografia e câmera de Ozualdo Candeias e Antonio Meliande. Já o crítico e cineasta Jairo Ferreira é o craque responsável pela seleção musical, que vai de Roberto Carlos ao progressivo. Um notável trabalho em equipe de uma turma que em sua maioria eram filhos do chamado cinema marginal, aqui trabalhando numa linha mais khouriana (o que torna A Noite do Desejo mais curioso e interessante pelo encontro de duas correntes importantes em nossa filmografia).

Um outro vértice do triângulo de narrativas de A Noite do Desejo é o proprietário gay de uma boate que persegue um dos rapazes até a hospedaria em que estes se dirigiram com as garotas. É preciso chegar até ao final para compreender que este personagem intrusivo é por si só o centro de uma história à parte, uma terceira narrativa que, no desfecho, vai ao encontro com a dos rapazes e das prostitutas. É um dos pontos mais obscuros do roteiro de Castellini e Fauzi, sendo necessário muita atenção na cena do roubo na abertura ou mesmo uma eventual revisão para que termine por se esclarecer o que transcorreu em torno desse personagem até culminar num final que beira a sanguinolência, alternado com uma outra querela que sela o destino dos personagens de Ewerton e Selma. O exploitation irrompe no filme, com as tensões físicas e emocionais e recalcamento íntimos explodindo em grandes doses de violência.

Nada que o alvorecer de um novo dia não resolva. O momento com uma das prostitutas, Marcela, tomando café com leite, comendo pão amanhecido, é uma das cenas que poderiam servir como sínteses de uma desolação que paira no ar, mas igualmente da escolha em optar por trilhar de cabeça erguida um caminho de resistência. Dos personagens e de todo um cinema.

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