O Que É Cinema Brasileiro?

Por Marina Mol

 

E o que é o cinema brasileiro contemporâneo?

Diz Jean-Claude Bernadet, em Brasil em tempo de cinema (1967), que conheceremos a significação do cinema que fazemos só quando soubermos em que ele vai dar e quando pudermos elaborar uma visão do conjunto cultural e social em que ele se integra. A imagem cinematográfica é um forte instrumento de identificação de um povo e ela compõe o modo como apreendemos e compreendemos o mundo que nos rodeia. Por meio dos filmes, podemos pesquisar como nos mostramos e como os outros nos veem.

Então, falar sobre os filmes e diretores da atualidade é tarefa imprescindível. Essa é uma tarefa mais difícil que analisar um autor que já tenha sua obra reconhecida, mas por outro lado, há uma boa vantagem de se pensar e discutir o cinema feito hoje, porque vivemos no mesmo tempo e realidade desses cineastas. Somos, assim, testemunhas das mudanças que estão efetivamente acontecendo.

Não pretendo entrar em questões relativas à produção ou ao gargalo da distribuição e da exibição de nossos filmes. Isso é muito pano para outras mangas. Queria delinear um mapa da produção atual, dos filmes da pós-retomada que temos acesso por meio dos festivais, mostras, exibições especiais e, também, através das tradicionais salas de cinema.

O cinema brasileiro contemporâneo não vive nenhum movimento específico, como foi toda a história do nosso cinema: chanchada, cinema novo, marginal, etc, hoje a herança da retomada – outro conceito pouco específico – produz uma variedade geral. E um dos pontos positivos dessa geléia geral é a dissolução da produção e a chegada de filmes fora do eixo Rio/São Paulo. Apresentando, assim, uma geografia mais ampla do cinema brasileiro. Hoje, em muitos festivais, temos a oportunidade de entrar numa mesma sessão e ver obras de Pernambuco, Ceará, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, dentre outros.

O espectador do cinema nacional pode escolher entre filmes tão diferentes como Viajo porque preciso, volto porque te amo (foto 1), realizado pelos pernambucanos Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, num formato que mistura documentário e ficção. Ou assistir a um blockbuster como Chico Xavier, de Daniel Filho, ou o estrondoso Tropa de Elite 2 (foto 2), de José Padilha, que foi o maior lançamento de todos os tempos do cinema nacional com distribuição independente e que já bateu os 11 milhões de espectadores. Ou ainda optar por documentários, como Solidão e Fé, vencedor do júri popular da 14ª Mostra de Tiradentes, sobre a realidade dos peões de rodeio e dirigido por uma mulher, a paulista Tatiana Lohmann.

Assim, mais que enumerar, queria destacar a diversidade como uma das características mais fortes da produção cinematográfica brasileira atual. Há filmes para todo tipo de gosto e público. E essa diversidade a que me refiro não está somente relacionada à temática abordada nos filmes, ela mora também nos diversos e variados formatos, gêneros, orçamentos, níveis de experimentação e, principalmente, nos graus de diálogo com o público:

– filmes de linguagem mais acessível, próximos das novelas, sem muitas experimentações, como os Globofilmes, produzidos por Daniel Filho e Guel Arraes (ambos, porém, a seu tempo e modo, grandes experimentadores na TV);
– filmes de veteranos como Jorge Furtado, Nelson Pereira dos Santos, José Joffily e Cacá Diegues – que foi produtor de 5X Favela – Agora por nós mesmos – releitura do clássico do cinema novo;
– os filmes produzidos fora do eixo Rio/São Paulo, como os filmes do Kleber Mendonça Filho, em Recife, os jovens da Alumbramento de Fortaleza, a Casa de Cinema, de Porto Alegre;
– os experimentais, de inspiração na videoarte, de perfil mais poético, livre e sem uma narração clássica, como os diretor mineiro Cao Guimarães e a produtora Teia, de Belo Horizonte, que tem entre seus integrantes Sérgio Borges, que lançou o ano passado o lindo Céu sobre os ombros (foto 3), vencedor do Festival de Brasília;
– os de gênero como os filmes de estrada, que inspirados no road movie desbravam as estradas do país para contar histórias de abandono e superação, como Estrada para Ythaca, dos irmãos Pretti e dos primos Parente (CE), Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes (PE), além do já citado Viajo porque preciso, volto porque te amo;
– os filmes de jovens cineastas que, de alguma forma, privilegiam abordagens contundentes, como Karim Aïnouz, de Madame Satã”, Laís Bodanzky, de As melhores coisas do mundo e Bicho de 7 cabeças, José Padilha, de Ônibus 174 e Tropa de Elite” e, ainda, Cláudio Assis, de Febre de Rato.
– o número crescente dos documentários, que faz escola com os diretores Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Sem contar os documentários e cinebografias musicais como Uma noite em 67, sobre o festival da Record daquele ano, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, de Claudio Manoel, Calvito Leal e Michael Langer e Elza, de Isabel Jaguaribe e Ernesto Baldan.

Não quero encaixotar, nem tipificar os filmes e seus realizadores. Essas obras são mais complexas e certamente há interseções evidentes nessa enumeração aqui apresentada. Sei que não esgoto esse universo nesse texto, mas queria mostrar como há um mapa diverso de opções no cenário do cinema brasileiro contemporâneo. Se os nossos cineastas não medem esforços quanto às dificuldades de se filmar no Brasil e nem quanto às inventividades, cabe a nós espectadores conhecer e verificar a diversidade presente nas telas. Quem ganha com essa heterogeneidade é o público.

Mariana Mól é jornalista cultural e doutoranda em cinema pela UFMG.

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