Ô Abre Alas

Especial O Carnaval no Cinema Brasileiro

Por Adilson Marcelino

Se o Brasil no imaginário popular, inclusive para além-fronteiras, sempre foi o país do samba, do futebol, do carnaval e da bunda da mulher brasileira, não é de se surpreender que esses cartões de visitas fossem abordados por diferentes áreas artísticas. E como aqui o assunto é cinema, é necessário dizer, antes de entrar no objeto do nosso especial, que o futebol, por exemplo, não encontrou nas telas a mesma paixão que cerca o esporte nos estádios, nas peladas dos campinhos, nas torcidas, na TV e no radinho de pilha. Isso, claro, a não ser o Canal 100, que enchia as telas dos cinemas de rua e sobreviveu na retina e na memória dos amantes do cinema. Ainda assim a associação cinema e futebol rendeu muitos frutos, e o livro Fome de Bola (2006), de Luiz Zanin Oricchio, pela Coleção Aplauso, está aí para não nos deixar mentir. Mas daí dizer que ela tenha rendido uma produção contínua e imediatamente radiografada pelo valor afetivo, pode não ser muito verdade.

Já com o samba e o carnaval são outros quinhentos. Afora alguns momentos sazonais, como no auge da época da discoteque de meados dos anos 1970, por exemplo, a música brasileira quase sempre teve valor fincado in loco para as diferentes gerações, principalmente se pensarmos da Era do Rádio para cá. Não importa o gênero, o ritmo ou estilo, pode ser samba-canção, bossa nova, iê iê iê, tropicalismo, canção popular, BRock, pagode, axé, rap ou funk. Cada qual encontra seu nicho de público com muito mais facilidade que o cinema brasileiro no geral. Porém, quando se dá a associação entre um e outro, a coisa pode funcionar. Foi assim nos anos 30, 40 e 50. E tem sido assim na atual redescoberta do cinema pela nossa música.

E nessa história de cinema e carnaval então, aí que a história rende. Ainda que tenha havido momentos antes, foi na Cinédia, estúdio que Adhemar Gonzaga fundou nos anos 30, que o carnaval encontrou geografia inicial perfeita. Não à toa estava localizado no Rio de Janeiro, até hoje palco clássico do carnaval tradicional – ainda que, atualmente, travestido de pirotecnias técnicas e estéticas; e não é toa que foi lá que Carmen Miranda, nossa estrela internacional, estreou nas telas no clássico A Voz do Carnaval (1933), de Gonzaga e Humberto Mauro. Outros títulos clássicos do estúdio nessa seara são Alô, Alô Brasil (1935), de Wallace Downey, João de Barro e Alberto Ribeiro, e Alô, Alô Carnaval (1936), de Adhemar Gonzaga.

Se a Cinédia fez história, e dali cunhou-se, inclusive, o gênero “musicarnavalesco”, o carnaval vai encontrar guarida ainda mais generosa, claro que novamente em solo carioca, mas dessa vez nas chanchadas da Atlântida, nos anos 40 e 50. Inúmeros cantores e compositores apresentavam suas marchinhas e sucessos de carnaval em filmes dirigidos por mestres como José Carlos Burle, Watson Macedo, J.B. Tanko e Eurídes Ramos. Para ficarmos só em um exemplo, Carnaval Atlântida (1952), de José Carlos Burle, é filme emblemático do gênero e clássico absoluto da história do cinema brasileiro.

O carnaval continuou despertando interesse em diferentes momentos do nosso cinema, e em cineastas de diferentes linhagens. Nomes ligados tanto ao Cinema Novo quanto o Cinema Marginal beberam nessa fonte, como também o cinema popular do anos 70 e diretores de outros países – como o francês Marcel Camus com Orfeu Negro (1959), conhecido também como Orfeu do Carnaval.

Aqui, nesse especial O Carnaval no Cinema, elencamos oito títulos marcantes que tem a festa popular como mote central ou funcionando mesmo como cama para que a trama se desenrole. Dai há desde o citado Carnaval Atlântida (1952) até uma leitura conjunta de duas faces do Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, pelas lentes do francês Marcel Camus e do brasileiro Carlos Diegues – Orfeu Negro (1959) e Orfeu (1999). Há também dos anos 50, Aviso Aos Navegantes (1950), e dos 60, Carnaval Barra Limpa (1967), dirigidos, respectivamente, pelos mestres Watson Macedo e J. B. Tanko.

Cacá Diegues aparece mais uma vez com Quando o Carnaval Chegar (1972), e também dos anos 70, Reginaldo Faria fala de machismo e independência da mulher com O Flagrante (1975). E por fim temos um dos momentos mais luminosos dessa junção cinema e carnaval, pela lente libertária de Walter Lima Jr, no fascinante A Lira do Delírio (1973/8 – foto).

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