Aviso aos Navegantes

Especial O Carnaval no Cinema Brasileiro

Aviso aos Navegantes
Direção: Watson Macedo
Brasil, 1950

Por Heitor Augusto

Não faço parte do grupo que adjetiva de cult uma produção capenga que hoje é defendida porque o verniz do tempo deu um trato nas aparências. Fora os filmes de Carlos Manga, encontrar chanchadas cinematograficamente destacáveis continua sendo a exceção, não a regra, missão que exige esforço de quem não participou, in loco, da comoção de ver o imponente logo da Atlântida surgir, dentro de uma sala de cinema dos anos 40, nos créditos iniciais de um filme.

Aviso aos Navegantes, por exemplo, é de um diretor que consolidou uma das formas da chanchada, a carnavalesca, recheada de números musicais com os artistas populares à época. O que o tempo diz desse filme de Watson Macedo? Como enxergar uma produção que não se importa de maquiar a clara intenção de ser mais uma peça na engrenagem que movia os sucessos radiofônicos?

Os mais velhos provavelmente vão encontrar uma ponta de saudade com o gênero, o rol de hits do carnaval e um desfile interminável de estrelas, especialmente a deslumbrante Eliana e o charmoso Ivon Cury. Dirão também, suponho, que Aviso aos Navegantes é descompromissado, só queria fazer rir, “que mal há nisso?”.

É pouca pretensão para um filme. Aliás, a defesa do “só quer fazer rir” persiste até hoje. Parece até que estamos falando de Muita Calma Nessa Hora que levou quase 1,5 milhão de pessoas ao cinema em 2010, ano de Tropa de Elite. Mas, voltando à chanchada, o filme de Watson satisfaz a curiosidade de saber como se faziam sucessos de bilheteria no Brasil. Qual é a linha de evolução (ou involução) do “cinema popular brasileiro”? Como saíamos de Nhô Anastácio Chegou de Viagem e chegamos a De Pernas Pro Ar?

Carnaval nordestino

Aviso aos Navegantes começa tirando o fôlego e jogando o público para cima: já nos créditos, o frevo/baião Tomara que Chova, de Paquito e Romeu Gentil. Pronto, terreno estabelecido e, sem dar um respiro, desce Eliana, a maior estrela da chanchada, descoberta pelo tio Watson, metida numa fantasia à Carmem Miranda, entoando mais um baião, Bate o Bumbo, Sinfrônio, de Humberto Teixeira.

Registro histórico: é curioso observar que uma chanchada carnavalesca de 1950 se rendia não mais ao samba, mas à invasão do baião promovida pelos parceiros Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, eminentes cantor e compositor, respectivamente, do gênero que povoou as rádios na década de 1940 e comecinho dos anos 50. Como um filme que seguia o que o rádio tocava, Aviso aos Navegantes põe o samba em segundo plano.

Acaba o número musical de Eliana. Anselmo Duarte bate palmas e conversa com Sergio de Oliveira sobre o quão bom é o baião que acabamos de assistir. A prosa dura 20 segundos e corta, vamos para o próximo número musical, agora com Oscarito vestido de bebê na marcha Neném, de Armando Cavalcanti e Klecius Caldas.

Watson repete a estrutura o filme inteiro: canções amarradas por um fiapo de enredo. O mocinho Anselmo Duarte deve salvar a mocinha Eliana do malvado vilão José Lewgoy, Oscarito fica responsável pelas traquinagens, usando de escada seu grande parceiro de comédia, Grande Othelo. Elenco estrelar a justificar a presença de rainhas e reis do rádio, como Emilinha Borba, Ivon Cury, Cuquita Carballo e o conjunto 4 Ases e 1 Curinga.

Watson x Manga

Assim como assistir a De Pernas Pro Ar é sentir saudades de Se Eu Fosse Você, rever Aviso aos Navegantes praticamente dá o status de obra-prima da comédia a Nem Sansão, Nem Dalila (1955).

Watson Macedo e Carlos Manga eram realizadores versáteis que entraram no cinema pelas portas do fundo. A diferença entre os filmes do primeiro em relação ao seu sucessor dentro da Atlântida é que Manga tinha mais respeito pelo cinema e sensibilidade para inserir críticas sociais no humor. Com ele, a chanchada chega ao seu melhor momento cinematográfico e assume a condição terceiro mundista e satiriza nossa posição cultural colonizada.

Ambos comandaram produções que, colocadas em perspectiva histórica, permitem matutar sobre os filmes de hoje que almejam serem populares. Temos realizadores mais próximos do estilo vale-tudo pelos números musicais de Watson ou da comédia bem cuidada e elaborada de Manga. A chave, hoje, não é implodir os dois, mas proporcionar a sobrevivência de quem está à margem disso. Faz-se cinema, faz-se dinheiro e, sempre que possível, derruba-se essa dicotomia. Porque se a nossa cinematografia dependesse só de filmes como Aviso aos Navegantes – ou, fazendo a ponte histórica com as devidas ressalvas, de Muita Calma Nessa Hora –, estaríamos mergulhados num vergonhoso limbo.

Às vezes, o tempo e o culto das novas gerações a filmes deficientes, como os de Ed Wood, conseguem reposicioná-los, criando outras portas de diálogo – por exemplo, as sessões/evento de The Rocky Horror Picture Show. No caso de Aviso aos Navegantes, o tempo não foi um bom amigo.

 

Heitor Augusto é repórter e crítico de cinema. Atualmente, colabora com o Cineclick, no qual faz cobertura dos principais festivais no Brasil, escreve sobre os lançamentos do circuito e mantém a coluna mensal Clássico do DVD. Mantém, desde 2008, o blog Urso de Lata. Colaborou para a Agência Carta Maior e Revista de CINEMA.”

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