Sexo Doido

Dossiê Alfredo Sternheim

Sexo Doido
Direção: Alfredo Stenheim
Brasil, 1986

Por Adilson Marcelino

A grande diferença entre Alfredo Sternheim e muitos outros realizadores de filmes explícitos é que os dele têm histórias. E alguns poderiam ter sido perfeitamente títulos de produção comercial, a não ser pelas tais cenas de rala e rola, tamanho o cuidado na confecção do roteiro – sem, claro, muitas vezes apelar para frases picantes, chulas, divertidas e de duplo sentido: “largue esse telefone e venha falar no meu”. Como é o caso desse Sexo Doido, realizado em 1986 e protagonizado por Sandra Morelli e Fernando Sábato.

Sternheim rodou 13 filmes explícitos, sendo Sexo Doido um dos últimos. Ou seja, mesmo trafegando em gênero que dava muito dinheiro, mas nenhuma respeitabilidade – e muitos ataques e desprezo pela crítica -, o cineasta não abriu mão de contar boas histórias e de, ele mesmo, continuar assinando seus roteiros, como sempre fez. Isso sem falar no fato de que também assinava o próprio nome nessas produções, algo incomum na época – seu produtor, Juan Bajon, da Galápalos Produções Cinematográficas, foi outro que também assumiu sua identidade verdadeira nessa fase.

Em Sexo Doido, Sandra Morelli é Jô, uma jovem milionária filha de deputado imbuída de vontades feministas e que fica saturada em ser apenas mais um objeto para o desejo masculino. Logo no início da trama ela dá um esporro no namorado que a deixa esperando em encontro marcado, avisa que as coisas vão mudar dali para a frente, vai embora e o deixa plantado no local. Jô entra em um cinema pornô onde está sendo exibido um filme com temática rural, com direito a trepada de cavalos. Rechaça o espertinho que senta ao seu lado cheio de intenções e fica vidrada quando aparece na tela Fernando Sábato, o astro da fita.

Jô fica completamente obcecada pelo belo e faz de tudo para conhecê-lo. É aí que arquiteta uma armadilha para o ator e acaba seqüestrando-o em sua casa de praia, onde o prende nu na cama e faz dele seu objeto sexual.

Sexo Doido se vale de alguns diálogos discursivos de teor feminista um tanto carregados, e não abre mão de colocar em cena uma bichinha divertida e uma mulher devoradora e libidinosa – ela, interpretada pela musa Márcia Ferro. Mas é mesmo no carisma de Sandra Morelli e no poder da trama que o filme se sustenta. Há de se notar que o tal feminismo da protagonista acaba sendo uma cilada para ela mesmo, pois depois de fazer do moço seu objeto, ela cairá em seus braços apaixonada, enquanto ele está apenas de olho na sua fortuna. Ou seja, o roteiro pisca para a libertação da mulher, mas acaba reservando para ela o papel de vítima eterna.

Há de se aplaudir a coragem do cineasta em acrescentar cena de sexo explícito homossexual masculina, de forma alguma apelativa, algo incomum nas produções da época.

Em sua biografia na Coleção Aplauso, Alfredo Sternheim elenca Sexo Doido como um de seus filmes preferidos dessa fase e assinala o absurdo de alguns considerarem o filme uma cópia invertida de Ata-me, do espanhol Pedro Almodovar. Está certíssimo. A afirmativa é mesmo absurda, pois Almodovar dirigiu seu filme em 1990, já Alfredo realizou o seu cinco anos antes.

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