Musas Eternas

Ava Gardner

Por William Alves

Rose McGowan é mulher deslumbrante. Isso posto, pode-se afirmar, seguramente, que ela recebeu (e recebe) diversos tipos de louvores durante a vida. Nenhum deles, no entanto, pode suplantar aquele elogio que Quentin Tarantino fez a ela em Planeta Terror, de Robert Rodriguez: “Você parece a Ava Gardner”. E não importa muito que aquilo seja uma obra de ficção, pois Jean Cocteu, ao afirmar que ela é “o mais belo animal do mundo”, meio que concorda com Quentin.

O filósofo Edgar Morin, em um ensaio datado de 1972, declarou que a carreira de Ava se dividia em duas fases: a carreira convencional (até 1952) e a carreira extraordinária, depois de 1952. Ava se apresentou ao mundo em The Killers, de 1946, período de ouro do cinema noir. O filme é em preto e branco, mas não há falta de saturação suficiente que possa turvar a silhueta curvilínea da musa, que desfila com propriedade pelo belíssimo longa de Robert Siodmak. O personagem de Ava, convenientemente (ou coincidentemente?), se chama Kitty. Burt Lancaster, que estreava nas telas, não poderia receber motivação melhor para continuar atuando.

Ela estrelou outro filme de Siodmak, The Great Sinner, de 1949. Dessa vez com o astro canastrão – mas que conheceu a doutrina dos filmes certos – Gregory Peck, com que ela voltaria a contracenar em 1952, no clássico As Neves do Kilimanjaro. Mas em 1953, validando a teoria de Morin, que ela realiza a sua mais bem feita obra.

Devidamente tutorada por um dos maiores pilares de Hollywood, o mestre John Ford, Ava é o par de Clark Gable em Mogambo. Diferentemente de alguns dos filmes mais conhecidos de Ford, westers irretocáveis como o O Homem que Matou o Facínora e Rastros de Ódio, Mogambo é uma aventura com cenário na África. Para completar os motivos pelos quais esse filme deve ser assistido (como se Ava e Ford não fossem suficientes), Grace Kelly também está no filme.

A essa altura, Ava já estava casada com o astro Frank Sinatra. O divórcio aconteceu em 1957 e, a julgar pela desolação contida no álbum In The Wee Small Hours (de 1955, quando o casal já estava separado), Frank decididamente sentiu o golpe. Contudo, como não poderia deixar de ser, o disco é quase tão bonito quanto a própria moça. À época, o músico foi duramente criticado por colunistas, já que havia deixado a sua “respeitável esposa” por uma “femme fatale”.

Outras obras estupendas da carreira da atriz viriam em 1959, na forma de A Hora Final, e em 1964, com A Noite do Iguana. Seu último filme é 1982, Mama. Ela faleceu em 1990, vitimada por uma pneumonia.

Falar de Ava é como resenhar um quadro de Degas ou descrever um livro de Camus. Por mais perfeita que seja a ordem dos termos escolhidos e mais consistentes os argumentos, é impossível se aproximar da sensação do objeto em si.

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